DISCERNIMENTO (POLÊMICA DA NOVELA GLOBAL)


Discernir é entender, compreender, ter critérios, bom senso.

Devemos usá-lo em todos os momentos para não corrermos o risco de desenvolver preconceitos e pré-julgamentos.

O discernimento é fruto de reflexão, da busca de conceitos que se harmonizem com a mente e que se refletirão nos atos, e com a forma que nos relacionamos.

A clareza de pensamentos e a segurança nos próprios conceitos, permite que exista um diálogo saudável, mesmo entre pessoas com opiniões diametralmente diferentes.

Quem tem em si a disposição de compreender, está também aberto a aprender novos conceitos, outros aspectos da vida que ainda não conhecia, consciente do arbítrio de concordar ou não, mas nunca combatendo ou querendo impor ferozmente seus pontos de vista, pois sabe que cada um tem o direito de perceber o mundo ao redor de diferentes formas, assim como tem seu próprio direito a esta percepção.

Vejamos o que a nova novela global vem trazendo. Focaliza a crença e a Fé em São Jorge. E eis que uma história ficcional está gerando polêmicas e levantando ânimos. Alguns acham ofensivo depositar a fé em santos, outros, não gostam de comparar São Jorge com o Orixá Ogum, não admitindo haver qualquer relação.

Para alguns de nós, umbandistas, há até a dúvida se São Jorge realmente existiu na Capadócia, ou se ele é a representação do guerreiro impávido, exemplo de coragem e destemor na luta pelas causas justas.

O que ocorre é que o homem é um ser belicoso por natureza, e se identifica com a figura do guerreiro com armas. E o homem necessita de arquétipos para compreensão de tudo o que lhe cerca. De acordo com Jung, discípulo de Freud, são imagens primordiais,originadas de uma repetição progressiva de uma mesma experiência durante muitas gerações, armazenadas no inconsciente coletivo.

Um exemplo fácil, uma cerveja, além de matar a sede, satisfaz a necessidade de pertencer a um grupo. Temos as “happy hours”, a cervejinha após o trabalho, onde a cerveja é coadjuvante da satisfação , quase uma obrigação de se ter amigos com quem se encontrar, conversando sobre os mais diferentes temas, sinônimo de relaxar, gastas umas horas fora a “dureza” da vida. A empresa que fabrica a cerveja que mais souber explorar esse arquétipo, será a mais famosa.

Precisamos de heróis, e essa necessidade inunda nossas vidas, as letras das músicas,os livros e os contos de fadas para crianças. Através da travessia dos heróis, nos guiamos e temos uma compreensão da vida cotidiana.

De maneira similar ocorre o mesmo na vida espiritual. Não conseguimos nos ligar com este aspecto transcendente se não tivermos imagens arquetípicas. Precisamos imaginar uma forma para o Mestre Jesus, criou-se uma série de apresentações para a Maria, nossa Mãe Amantíssima..

A Espiritualidade que decidiu trazer os ensinamentos do Mundo Maior, através de lições de Amor, Bondade e Caridade que embasam a Umbanda, determinou utilizar os arquétipos dos Caboclos e Pretos Velhos, que chegam até nós de maneira a que acertemos com naturalidade, sem sustos, facilitando nossa compreensão, enchendo-nos de confiança, de forma que os canais cósmicos que nos unem ao astral se abram com mais facilidade, nossos chacras vibram e se identificam com essas energias que vêm nos auxiliar,porque nos acostumamos a encontrar a proteção na força dos caboclos, serenidade no carinho dos pretos velhos.

São Jorge, a quem tanto pedimos, é a representação do que o Orixá Ogum significa para nós. Podemos mentalizar as imagens do Ogum africano, a partir dos desenhos que vemos, e conseguimos focalizar nossa atenção, como precisamos da vela, do copo d’água para canalizar nossos pedidos. Mas é a imagem forte de São Jorge que predomina na maioria das vezes, aquele que mata os dragões. Sabemos que não existem dragões na Terra,mas é essa imagem de São Jorge, transpassando o dragão com sua lança, que move nossas orações, e a ele agradecemos as graças alcançadas,pois, com certeza, a prece que vem do coração sempre encontra auxílio nessa Espiritualidade que nos cerca e protege.

Mas é necessário discernimento, pois por ser um guerreiro, São Jorge nunca trará a guerra, nunca derrubará ninguém, apenas pela vontade de outro que lhe quer mal. São Jorge, a sua representação, será para nós, da Umbanda, o Cavaleiro da Paz, aquele que protege seus filhos, desfaz as demandas, e os coloca nos caminhos para serem firmes, determinados, fortes. O melhor guerreiro é aquele que vence suas próprias batalhas, sem alarde, combates inúteis que ferem a Lei de Ação e Reação ou Lei do Retorno.

Então, dentro deste discernimento, vamos respeitar a Fé de cada um, suas crenças, seus limites, assim como temos os nossos, aceitando que cada um tem sua verdade . E lutando, sim para alcançar seu próprio equilíbrio, a direção da própria vida, sua serenidade e vitória sobre todas as dificuldades.

Alex de Oxóssi
Rio Bonito – RJ