A Mediunidade e os seus testemunhos (o exemplo de Joana D’Arc)


Pugliese, A. Revista Internacional de Espiritismo, pag. 32 a 34, fevereiro de 2010

Segundo o escritor Hermínio Miranda, pode-se dizer que a História resulta de uma integração de homens e Espíritos de dois campos vibratórios representados pelo mundo espiritual, inexistindo uma História Humana e uma História Espiritual inteiramente autônomas; existe, isto sim, uma História entrelaçada. Assim, muitos homens e mulheres, na trajetória da História da Terra, participaram, de forma lúcida ou não, desse plano articulado entre seres encarnados e os Espíritos.

Na Idade Média, pelos anos de 1429-1430, pelos menos três Espíritos se mobilizaram para libertação de uma nação, a França, do jugo, do domínio de outra nação, a Inglaterra. Nos registros dos fenômenos psíquicos e na história da Mediunidade, esses Espíritos foram anotados como São Miguel, Santa Catarina de Alexandria e de Santa Margarida de Antioquia, considerados santos pela Igreja Católica.

O episódio fez parte do conflito que ficou registrado nos anais da História Mundial como Guerra dos Cem Anos, e que perdurou, na Idade Média, entre os anos de 1337 e 14453, envolvendo diversos acontecimentos. Era a primeira metade do século XV e a França se encontrava subjugada pela Inglaterra. Os ingleses tinham vencido as batalhas e dominavam quase todo o território francês. Historiadores apontam diversas causas para a chamada Guerra dos Cem Anos, sendo uma delas as pretensões dos reis da Inglaterra ao trono da França, a qual, ameaçada a perecer como nação, tinha, contudo, outro destino. Fatos importantes deveriam ocorrer no solo francês, e que afetariam a história da Humanidade. Podemos citar três deles: a Queda da Bastilha, em 14 de julho de 1789, com o surgimento da famosa Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão; o início do movimento chamado Iluminismo, predominante na Europa do século XVIII, cujo período ficaria conhecido como Século das Luzes; e finalmente, a Codificação do Espiritismo,realizada por meio de um dos filhos da França, Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869), a partir da elaboração d “O Livro dos Espíritos”, publicado em 18 de abril de 1857, com o pseudônimo de Allan Kardec.

Foi então que naqueles dias históricos do século XV uma jovem de 19 anos, chamada Joana D’Arc, nascida na cidade de Domremy, no ano de 1412, ouviu vozes que ela dizia ser dos Espíritos São Miguel, Santa Catarina de Alexandria e de Santa Margarida de Antioquia, que a exortavam a manter contato com o delfim Carlos VII (1403-1461), e libertar a França, devastada pela invasão inglesa.

Joana convenceu o monarca de sua missão, foi posta à frente de uma pequena tropa armada, obrigou os ingleses a levantarem o cerco da cidade de Orleans e fez consagrar Carlos VII rei da França. Contudo, traída e entregue aos ingleses, é acusada de feitiçaria, encarcerada numa prisão do castelo de Ruão, nos confins da Normandia e, em determinado dia do mês de maio de 1431, estava sendo submetida a um daqueles terríveis interrogatórios eu a História registrou, no curso do processo da sua condenação, movida pela chamada Santa Inquisição , na França, e um dos seus mais encarniçados verdugos, ou juízes, o bispo de Beauvais, faz-lhe uma pergunta ardilosa, tentando confundi-la: São Miguel te aparece despido? “Prontamente respondeu a donzela com outra interrogação, tão profunda, tão sutil e complexa que não a poderia ter compreendido a crueldade do estreito cérebro dos seus algozes, mas que a posteridade, nos dias atuais, devidamente compreende e explica À Luiz dos estudos transcedentais feitos pelo Espiritismo: “Pensas que Deus não tem como vesti-lo?”. Mais tarde, no século XIX, os estudos contidos em “O Livro dos Espíritos” elucidariam acerca do invólucro dos espíritos, o perispírito.

De outra feita lhe foi perguntado: “Você está na graça de Deus?” Era um ardil semelhante ao que fora dirigido a Jesus com a intenção de prejudicá-Lo:”É lícito pagar imposto a César?” O sim deixaria Jesus em confronto com os judeus. O não O poria contra os romanos. Da mesma maneira, o sim de Joana caracterizaria, segundo os conceitos religiosos da época, presunção. O não seria uma confissão de culpa. Surpreendentemente, Joana responde: ”Se não estou, que Deus nela me aceite; se estou, que Deus nela me conserve!” .

Afinal, o que aqueles homens temiam? A menina de 19 anos, vestida de homem? A sua beleza, o seu fascínio? Eles temiam e combatiam o que não conheciam: a mediunidade da qual ela era portadora. Temiam suas faculdades paranormais que eles nãoentendiam. “Vim da parte de Deus” , dizia ela após sacerdotes e príncipes das igrejas, estupefatos pela ousadia da jovem donzela.

León Denis narra os últimos momentos da Donzela de Orleáns:

”Após julgada e injustamente condenada, naquela manhã de 30 de maio de 1431, Joana D’Arc estava imperturbável. Amarrada à fogueira, ouve a leitura do libelo acusatório de 70 artigos. Muitos choram. Ela pede a um dos presentes:”Eu vos peço, ide buscar-me a cruz da igreja mais próxima, quero tê-la erguida bem defronte de meus olhos, até o último instante. Quando lhe apresentam a cruz, cobre-a de beijos e de pranto.
Naqueles momentos graves, a heroína revê toda a sua vida, curta, mas brilhante. Evoca a lembrança dos entes que ama, recorda os dias serenos da sua infância em Domremy, o semblante meigo de sua mãe, a fisionomia austera do velho pai e as companheiras de sua meninice. Revê tudo isso, na hora derradeira. Quis, por essa forma, num como supremo abraço, dizer adeus fial a todas aquelas coisas, a todos aqueles entes amados. Não tendo nenhum deles diante da vista, concretizou, na imagem do Cristo crucificado, suas lembranças , suas ternuras.
Os carrascos põem fogo à lenha e turbilhõs de fumaça e enovelam no ar. A chama cresce, corre, serpeia por entre as pilhas de madeira. O bispo de Beauvais acerca-se da fogueira e grita-lhe: Abjura! Ao que Joana, já envolvida num círculo de fogo, responde: Sim, minhas vozes vinham do alto. Minhas vozes não me enganaram.Minhas revelações eram de eus. Tudo que fiz, fi-lo por ordem de Deus!
Suas vestes incendiadas se tornam uma das centelhas da imensa pira. Ecoa um grito sufocado, supremo apelo da mártir ao mártir do Gólgota:Jesus! E nada mais se ouviu, além dos estalidos do fogo”

Dr. Bezerra de Menezes, no livro “Compromissos iluminativos”, psicografado pelo médium Divaldo Franco, destaca que :

“Periodicamente na Terra, a mediunidade padece de rude perseguição, com que as forças representativas da Treva e da ignorância pretendem silenciarão itercâmbio com a vida além das fronteiras carnais e que Graças à Revelação Espírita, noseu nobre compromisso de Consolador, surgiu a metodologia para o labor mediúnico que, convenientemente aplicada, resguarda dos perigos a que se expunham, no pretérito, os portadores desse abençoado instrumento de caridade e luz, propiciando-lhes saúde, discernimento e paz”.

Os fenômenos de visão, de audição dos Espíritos e de premonição que pontilhavam a vida de Joana D’Arc desde os 12 anos de idade, dariam lugar às mais diversas interpretações. Entre os historiadores, uns não viram neles mais do que casos de alucinação, outros chegaram a falar de histeria ou nevrose, alguns lhe atribuíram caráter sobrenatural e milagroso.

Em 1990, por exemplo, em reunião anual da Academia Americana de Neurologia, s pesquisadoras Lydia Bayne e Elizabeth Foote-Smith, da Uiversidade da Califórnia, concluíram que todos os fenômenos ditos paranormais atribuídos a Joana, tinham aura em uma forma rara de epilepsia. Segundo essas pesquisadoras, a raridade por elas detectada na heroína francesa, no lugar de provocar convulsões, manifesta-se através de delírios e alucinações. Para dar maior validade e destaque à doença, deram-lhe a nomenclatura científica de Apoplexia Parcial Complexa. Esse o nome que duas cientistas .no século XX, deram à Mediunidade Testemunhal de Joana D’Arc.!

Joana, contudo, era o exemplo vivo da mensageira celeste, possuidora de uma faculdade especial, que ela, mais tarde, em mensagem inserida em “O Livro dos Médiuns”( 1861), designaria como Mediunato, a missão providencial dos médiuns, e que os homens do seu tempo não reconheceram e então, levaram-no à fogueira, como herege e feiticeira.

Em 1450 houve sua reabilitação, proclamada em 1456, pelo Papa Calixto III. Foi beatificada em 1909 e canonizada em 1920, na Basílica de São Pedro.