FIM DA ENCRUZILHADA


Cariocas dão suas versões para explicar o
sumiço dos despachos das ruas do Rio nos últimos anos

Por Mariana Filgueiras
Revista O Globo- 11/09/2011

Tal qual as mulheres e bobes nos cabelos, as carrocinhas de “tripeiras” e a nota de plástico de R$10, as macumbas sumiram das ruas do Rio. Quase não se veem mais despachos nas encruzilhadas da cidade, que outrora provocavam um misto de medo e curiosidade aos não-iniciados com suas velas, alguidás, charutos, pipoca e galinha preta. A observação é compartilhada por moradores, garis, boêmios (quem melhor sabe o que se passa nas madrugas?), estudiosos do tema e adeptos das religiões de origem africana.

Confesso que raramente vejo um. Só mesmo lá pelo interior de Magé comenta o escritor Alberto Mussa, pesquisador de mitologias, entre elas a afro-brasileira, e adepto do candomblé -. É uma pena, porque a umbanda (os candomblés usam mais a mata) é uma das criações mais espetaculares da cultura brasileira, totalmente miscigenada, com elementos católico-portugueses, africanos e indígenas. Um patrimônio que não podia desaparecer.

Para a antropóloga e professora da UFRJ Yvone Maggie, a redução dos rituais representa uma mudança na “cosmologia” dos brasileiros, na sua maneira de ver o mundo.

– Nos anos 80, era impossível andar nas ruas sem encontrar um despacho numa encruzilhada – lembra.

– Nos últimos 20 anos, houve uma diminuição sensível desses rituais, enquanto igrejas evangélicas se proliferavam pelas ruas. Talvez os brasilerios tenham se fartado de soluções de apelo à feitiçaria.

Se o sumiço dos ebós é um consenso, as razões do curioso fenômeno são distintas. Exímio observador das ruas cariocas, o sambista Moacyr Luz faz , com nostalgia, uma lista delas:

– Será que os despachos estão sendo feitos pela internet? Será que o medo tem afastado os trabalhos feitos na marugada? Até os mais devotos têm evitado as encruzilhadas. Também encareceram os cabritos e os alguidás. Os moradores de rua não estão livrando as oferendas, bebendo toda a uca, fumando todo o charuto. A sociedade está taõ solitária que a fé agora vem sitonizada nas TVs.

Não são teses infundadas as do boêmio, que já usou muitas mandingas como temas de canções. A costureira espírita Luiza (nome fictício, porque prefere não se identificar), mora no Estácio e costumava fazer oferndas pela cidade. Mas agora migrou seus rituais para matas distantes, evitando o assédio dos moradores de rua.

-Antes havia mais respeito. Agora é assim: eles mal veem que voce está cumprindo um ritual e já tomam os objetos para si. Como os exus são das ruas, as oferendas têm cigarros, cachaça, justamente o que os moradores de rua procuram – diz a costureira, que tambem acredita que houve uma conscientização ambiental por parte dos adeptos, que não deixam mais em qualquer lugar os trabalhos que possam ser confundidos com lixo.

Moradora da Ilha do Governador há 18 anos, a comerciante Ana Cristina de Souza, de 42 , conta que perto de sua casa, a caminho do Cemitério do Cacuia, há tres encruzilhadas onde toda sexta feira se via um amontoado de oferendas.

– Mas agora a Comlurb começa a limpar muito cedo, ás 6hs, então quase não se vê mais nada – relata Ana, que é católica.

Par muitos religiosos, no entanto, a desculpa não são os moradores de rua, a eficiência da Comlurb ou os sites que fazem macumba online (eles existem mesmo). A principal razão pela qual as manifestações públicas estão inibidas, alegam os seguidores, é o preconceito. O músico e compositor Cláudio Jorge, integrante da banda de Martinho da Vila, foi um dos que já passaram por constrangimento no Rio.

Cláudio lembra bem de um episódio:

– Uma vez foi na Praia de Botafogo, onde evangélicos tentaram me impedir de acender uma vela na areia. A outra foi em Santíssimo, na minha casa de santo. Fomos arriar um despacho numa encruzilhada, quando um grupo, saindo de um culto, começou a nos ofender. Ficamos preocupados porque era tarde da noite, e isso nos fez mudar de local de nossos ebós.

Dirigente umbandista do templo Estrela do Oriente, em Piedade, Luis Fernando Barros conta que já foi até impedido de entrar no Parque Nacional da Tijuca.

Mesmo garantindo que manteríamos o local limpo, e que só haveria cânticos, não obtivemos autorização nem qualquer justificativa (dos seguranças do parque). Fizemos nossa gira em outro local, mas perdoamos os que agiram de forma pouco respeitosa – conta Luis.- A umbanda é uma religião essencialmente ecológica, os Orixás e as Entidades são energias presentes na natureza. Entendemos que, ao sujarmos o meio ambiente, agredimos o sagrado panteão.

Nem todos os adeptos, no entanto, têm essa visão.Por conta da quantidade de despachos que são deixados no Alto da Boa Vista, para onde muitas das oferendas urbanas migraram, a Comlurb teve de designar um gari exclusivo para limpá-los: Alexandre Borges, homônimo do ator de novelas. A escolha de Alexandre foi pensada. Como os antigos garis tinham medo de mexer nas oferendas – e acabavam não limpando a mata direito – procuraram um profissional que fôsse simpático aos ritos. Encontraram Alexandre, que além de gari, é pai de santo em Mesquita.

– Vem o Dia das Crianças, aí um dos mais concorridos depois do dia de São Jorge. A cachoeira fica cheia de trabalhos. Eu sempre oriento o pessoal a deixar tudo mais ou menos organizado, e não tão espalhado, para ficar mais fácil de recolher depois. Mas nem todo mundo faz – detalha Alexandre, que prefere fazer seus despachos no próprio centro que dirige.

A falta de um local seguro para a prática das oferendas provocou uma série de discussões no centro Espiritualista Semeadores de Luz, na Ilha do Governador, e na Casa Nagô Vodu, em Magé.

– Há um apelo dos adeptos em conseguir um espaço destinado ao despachos, onde os praticantes possam realizar seus rituais resguardados da repreensão de policiais, vigias e guardas florestais – declara o dirigente Marcelo Prazeres, lembrando que muitos profissionais agem influenciados por crenças particulares.

As tentativas de se implantar “macumbódromos” não são novidade (primeiro projeto de lei neste sentido data de 1990), no entanto, nunca saíram do papel. Ou não duraram muito tempo, como a ideia de usar dois tocos de árvore para delimitar a área de oferendas na Avenida Edson Passos, no Alto da Boa Vista, implementada pelo Prefeito Cesar Maia, em 2003 – e suspensa logo depois pelo mesmo. Uma exceção é um espaço que reúne com frequencia umandistas na Praça São Jorge, em Sulacap, na Zona Oeste, apesar dos protestos dos moradores.

O escritor Alberto Mussa analisa a urgência dos “ebós” para as religiões africanas:

– Há uma diferença teórica muito imporante entre as religiões derivadas do judaísmo, como a católica, que tranferem todo o problema para a vida depois da morte. O importante é a pessoa se garantir para o além-túmulo – explica. – as religiões africanas não são assim. As coisas têm de acontecer agora, porque o paraíso é a terra, a vida na terra é o grande bem. Por isso, os ebós são sempre ligados a pedidos e ações imediatas. Nesse confronto, as religiões africanas estão perdendo espaço.

 

Por Mariana Filgueiras
Revista O Globo- 11/09/2011