Jardim das Folhas Sagradas


“Temos que quebrar o sigilo em que vive o cinema brasileiro”, diz diretor de “Jardim das Folhas Sagradas”

EDU FERNANDES
Colaboração para o UOL, do Rio

  • O ator Harildo Deda interpreta pai de santo no  filme Jardim das Folhas Sagradas(O ator Harildo Deda interpreta pai de santo no filme “Jardim das Folhas Sagradas”)

O cinema baiano, que já deu ao Brasil nomes como Glauber Rocha, tem três representantes no Festival do Rio 2010. Entre eles está o veterano Póla Ribeiro, que trouxe seu filme “Jardim das Folhas Sagradas” para a Cidade Maravilhosa.

O filme conta a história de um homem que deve fundar um novo terreiro de candomblé, mas tem que lidar com várias formas de preconceito: sexual, racial e religioso. O UOL Cinema falou com o diretor sobre “Jardim das Folhas Sagradas”, ainda sem data de estreia definida.

UOL Cinema – “Jardim das Folhas Sagradas” aborda temas muito típicos da Bahia, com referência a fatos locais. Como você acha que o filme dialoga com públicos de outros estados?

Póla Ribeiro – Mais do que uma temática regional, o filme se construiu a partir das discussões de movimentos negros e ecologistas da Bahia e de alguns outros cantos do país. Com muita alegria percebo que o longa é a materialização deste debate, que está ocorrendo nos principais centros urbanos do mundo, onde é forte a presença dos negros.

Em “Jardim…”, falamos de convivência social, política e religiosa, do respeito à diversidade e da questão da sustentabilidade. Debatemos como uma religião ancestral se estruturou no Brasil após uma viagem de trágicas consequências, se enraizou em nossa cultura e hoje nos oferece caminhos para nos relacionarmos com a modernidade em desenvolvimento ao mesmo tempo que com a natureza.

Tenho certeza que existem muitas pessoas que querem ver o filme, mas que precisam saber que ele existe e onde será exibido. Precisamos quebrar o sigilo e a clandestinidade na qual vive o cinema brasileiro. Temos de dar visibilidade aos produtos e romper o gargalo da distribuição. A exibição no Festival do Rio consolidou o potencial do filme e a gana que os espectadores tiveram de vê-lo em mais de uma sessão contribuirá para a sua difusão.

UOL Cinema – Como foi o processo de criação do roteiro?

Póla Ribeiro – Minha meta era trabalhar acerca do mistério que envolve a cidade de Salvador e o Recôncavo baiano, falar da cultura da sua gente negra que, infelizmente, sempre foi vista e tratada com superficialidade.

A base inicial foi a leitura de um oriki (poema, música ou rezas em Yorubá) de Xangô que vi de diversas maneiras e me deixou impregnado desse conhecimento. Queria quebrar um paradigma na Bahia: de que os negros não gostavam de filmes sobre negros. Eu compreendia que os negros não se sentiam representados naquelas imagens, e passei a frequentar de fato os encontros, as festas, os lugares e os seminários organizados pelo ‘povo de santo’ (os adeptos do candomblé).

  • (Póla Ribeiro dirige e roteiriza “Jardim das Folhas Sagradas”)

UOL Cinema – Como são esses eventos?

Póla Ribeiro – Na Bahia acontecem eventos como a Jornada das Folhas, do Ferro ou do Barro e durante dois ou três dias as pessoas debatem e trocam experiências sobre estes elementos, utilizações, significados, questões operacionais do como encontrá-los, poluição ambiental, substituição de matérias primas extintas, além de se posicionarem politicamente diante das coisas.

Discutem a questão do registro da sua tradição, que tem por definição um traço oral, questões de transformação, permanência e o significado atual dos seus rituais. Debatem a questão do sincretismo, do poder, da mídia, cotas, violência e visibilidade. Tudo ao mesmo tempo agora.

UOL Cinema – Como você trabalhou com todo esse material?

Póla Ribeiro – Ouvi, registrei, ordenei e coloquei a história que me pareceu mais recorrente como trama central do filme. Me coloquei bem mais como veículo de uma história que precisava vir à tona, não esgotando o tema, já que não tenho a intenção de exaurí-lo.

Ouvi de uma importante Yalorixá (espécie de sacerdotisa no candomblé) que quanto mais eu me informava, mais ignorante eu ficava, e era justamente este o meu sentimento diante da grande complexidade que envolve o mundo cultural, religioso e afetivo dos negros.

UOL Cinema – E outros filmes sobre candomblé? Eles entraram na sua pesquisa?

Póla Ribeiro – Conhecia os filmes acerca do tema e suas interdições. Filmes que mostram tudo, mas ao mesmo tempo não mostram nada sobre a temática. Obras como o filme umbandista “Amuleto de Ogum”, de Nelson Pereira dos Santos, ou o candomblé de ‘Tenda dos Milagres”, do mesmo diretor, contribuíram para minha pesquisa e formação.

Reproduzi na ficção textos do filme “Yaô”, de Geraldo Sarno, e desenvolvi um diálogo constante com “Barravento”, de Glauber Rocha, mas depois cortei esta parte do roteiro final. Penso que fiz um filme coletivo porque é assim que entendo o cinema.

Fonte: UOL CINEMA