ANIMAIS TAMBÉM REENCARNAM


O médium e escritor Eurípedes Kühl – Autor dos livros Animais, Nossos Irmãos (Petit Editora) E Animais, Amor e Respeito (LEB Editora) – Fala sobre o aspecto espiritual de nosso relacionamento com os animais e a possibilidade dos animais domésticos reencarnarem na mesma família.

Por Eurípedes Kühl

Hoje, quase todo mundo tem em casa um animal de estimação; dos mais tradicionais cachorros e gatos, até os mais exóticos, eles geralmente não são mais considerados apenas bichos sem alma, sem personalidade, mas praticamente fazem parte da família e, como tais, merecem toda a atenção e cuidado, inclusive no que diz respeito ao aspecto espiritual.

Após a edição do meu livro Animais, Nossos Irmãos, da Petit Editora, recebemos um número surpreendente de cartas de leitores, contendo perguntas instigantes, como:

– Se os animais não tem consciência, por que sofrem?;
– Animais podem reencarnar nos mesmo lares nos quais eram amados ao morrer?;
– Deve-se castrar animais para evitar a prole?.

Para responder adequadamente a essas questões, preciso falar sobre a dor nas plantas e nos animais. Em sua obra Depois da Morte (Ed. FEB, 1944), Léon Denis escreve: A dor é uma advertência necessária, um estimulante à vontade do homem, pois nos obriga a nos concentrar para refletir, e força-nos a domar as paixões . A dor é o caminho do aperfeiçoamento. Física ou moral, é um meio poderoso de desenvolvimento e de progresso. É purificação suprema, é a escola em que se aprendem a paciência, a resignação e todos os deveres austeros. É a fornalha onde se funde o egoísmo em que se dissolve o orgulho.

Em A Gênese, de Allan Kardec, no capítulo XVIII, nº 8, encontramos que plantas e animais são atingidos por enfermidades. Considerando que as plantas têm sensibilidade, podemos inferir que tal lhes causa sofrimento. Não temos condições de afirmar que “sentem dor”; apenas podemos constatar que:

– Uma árvore cortada perde seiva e morre;
– Galhos queimados definham rapidamente; antes, à simples aproximação do fogo, se retraem;
– Muitas são as pragas que atacam culturas, além de parasitas que lhes causam danos.

No caso dos animais, não há a menor dúvida que sentem dor tanto quanto nós. Mas aí , não poucas pessoas ponderam: “Se o homem resgata débitos contraídos por ações equivocadas, afastam das leis morais, como justificar que os animais e plantas também sofram? Que culpa lhes pode ser atribuída, se não têm, como nós, inteligência, livre arbítrio e consciência?”

Realmente, eis aqui um aparente contra – senso da natureza. Mas, na verdade, nada há de errado nisso.

Quanto aos homens não resta dúvida de que – para que cada ser galgue os degraus do progresso através de responsabilidade e esforço próprios – a Justiça Divina lhes proporciona o mecanismo das reencarnações, e engendrou o corpo físico suscetível a doenças e dor. Inicialmente, posicionou-se em mundos primitivos e dali os transfere para mundos apropriados ao progresso individual de cada um.

Doenças são próprias do patamar evolutivo dos planetas atrasados, como a Terra. Ajudam o homem a desenvolver a inteligência, para debelá-las. A dor funciona como poderoso alerta de que algo não vai bem, espiritual ou fisicamente falando.

Além do mais, a Lei de Causa e Efeito baliza o equilíbrio da Justiça, fazendo retornar à origem, o bem ou o mal. No caso do mal, ainda pela bondade suprema de Deus, o devedor pode ressarcir seu débito através de ações de auxílio ao próximo. Nesse caso, mesmo visitado por sofrimentos, estes já não lhe pesam tanto, eis que a esperança e a fé na justiça do Pai são poderosos anestésicos, além de potentes energéticos para suplantar dificuldades.

Muito bem. E a dor nos animais? Não tendo inteligência, livre-arbítrio ou consciência, suas ações, necessariamente instintivas, apenas visam à sobrevivência. E, sendo assim, como lhes imputar culpa e o respectivo resgate?

Partindo da premissa de que Deus é a Perfeição Suprema e o Amor Absoluto, em nenhuma hipótese poderíamos aventar a menor possibilidade de que isso consista injustiça ou equívoco da natureza. O enfoque tem de ser outro. Aqui, em cena a condição esclarecedora do Espiritismo.

Vamos nos demorar mais um pouco nas reflexões sobre a dor, de modo geral:

a) – Em A Gênese, capítulo III, Allan Kardec filosofa com grande profundidade sobre o bem e o mal, analisando detalhadamente sobre instinto e inteligência, e particularmente sobre a “destruição dos seres vivos uns pelos outros”. No item 21, esclarece que “a verdadeira vida, tanto do animal como do homem , não está no invólucro corporal, do mesmo modo que não está no vestuário. Está no princípio inteligente que preexiste e sobrevive ao corpo”. Aqui, já temos conteúdo suficiente para refletir que danos físicos que destruam a matéria, isto é, dos quais resulte a morte, não destroem o espírito (naturalmente, revestido do perispírito, que os animais também os têm, embora de matéria mais rudimentar que a humana).

Kardec prossegue, agora no item 24: “Nos seres inferiores da criação, naqueles a quem ainda falta o senso moral, nos quais a inteligência ainda não substitui o instinto, a luta é pela satisfação da imperiosa necessidade – a alimentação; lutam unicamente para viver; é nesse primeiro período que a alma se elabora e ensaia para vida”.

b) – O Espírito Emmanuel nos esclarece, de forma a não deixar quaisquer dúvidas, que a dor representa aprendizado constante da trilha evolutiva de cada ser vivo, rumo à evolução; essa informação é textual, cristalina e não deixa margem a derivações filosóficas. Ei-la:

“Ninguém sofre, de um modo, tão somente para resgatar o preço de alguma coisa. Sofre-se também, angariando os recursos preciosos para obtê-la”.

“Assim é que o animal atravessa longas eras de prova a fim de domesticar-se, tanto quanto o homem atravessa outras tantas longas eras para instruir-se”.

“Espiritismo algum obtém elevação ou cultura por osmose, mas sim através de trabalho paciente e intransferível”.

“O animal igualmente para atingir a auréola da razão deve conhecer benemérita e comprida fieira de experiências que terminarão por integrá-lo na posse definitiva do raciocínio”.

“Dor física no animal é passaporte para mais amplos recursos nos domínios da evolução”.

( O Reformador, junho, 1987. FEB).

Assim, mesmo que para muitos de nós tal seja penoso aceitar, prudente será refletir muito sobre o tema e sobre o quanto a ignoramos das coisas de Deus; alenta-nos considerar, com veemência, que o Pai jamais abandona qualquer dos Seus filhos. Com essa certeza, fica afastada, ab initio, que a crueldade que vitima animais seja indiferente à Vida e ao Amor de Deus, presente no infinitamente perfeito Plano de Criação.

c) – Juvanir Borges de Souza, em Tempo de Renovação, capítulo 20, página 164 (Ed. FEB, 1989), arremata: “Para bem compreendermos o papel da dor será necessário situá-la como a grande educadora dos seres vivos, com funções diferentes no vegetal, no animal e no homem, mas sempre como impulsionadora do processo evolutivo, uma das alavancas do progresso do princípio espiritual” (grifamos).

DIANTE DAS ASSERTIVAS ACIMA, REFLETIMOS:

– animais sofrem para que registrem em sua memória espiritual, eterna, que a dor dói, é ruim; assim, ao evoluírem, alcançando a inteligência, já trarão na bagagem cognitiva que a dor deve ser evitada – a própria, por autopreservação, e a do próximo, por ser esse um dos conselhos de Jesus para a evolução espiritual;

– nada nos impede de considerar que a dor, nos animais, completado e aprendizado, não mais se repetirá, sendo muito provável que, ao desencarnarem, sejam quais forem as condições, o sofrimento é interrompido no ato da desencarnação e sob patrocínio caridoso dos Missionários do Amor Eterno;

– aliás, não cremos que seja necessária mais de uma experiência dolorosa para fixação do aprendizado; como existem milhares de espécies e milhões de moradas no universo, há grande probabilidade de que os animais percorram muito desses mundos, em corpos adequados, acumulando experiências;

– com a restauração perispirítica é uma realidade do Plano Maior, nada nos impede também de imaginar que os perispírito dos animais, se danificados, ali serão recompostos por Geneticistas Siderais, os mesmos que promovem as modificações tendentes à escala evolutiva da espécie (vide A Caminho da Luz, capítulo, A Grande Transição);

– se os animais forem “anestesiados” por Espíritos Protetores na hora do abate, para evitar a dor, ali não ocorreria fixação do aprendizado evolutivo; contudo, nada nos abjeta raciocinar que em muitos, muitos casos mesmo, isso ocorra, porém em outras circunstâncias; por exemplo, quando a crueldade humana esteja presente, infligindo sofrimento a animais cujo programa reencarnatório não o previa;

– aos espíritos que amam os animais provavelmente é delegada a função de orientar as espécies animais quando no plano espiritual e de os proteger, quando no material; neste, fazem-no com abnegação e amor, criando habitats e mantendo os ecossistemas; assistindo-os nos momentos difíceis pelos quais passam. Consideramos por exemplo, que quando um predador de grande potencial ofensivo (nunca se esquecer que foram os Promotores da Vida que disso o equiparam) ataca uma presa indefesa (também de organismo engendrado pelos Guardiões da Vida Eterna), Deus está presente num e noutro animal; pela Lei do Progresso, certamente, no avançar do tempo, os papéis talvez sejam invertidos, após o quê ambos já terão em sua memória espiritual tal lembrança (automatismo biológico – espiritual); atingindo a razão/inteligência, só cometerão violência por decisão própria, a bordo do livre arbítrio; e, a partir do livre – arbítrio, a evolução passa a ser balizada pela Lei de Causa e Efeito – Ação e Reação.

Por ser oportuno, vejamos alguns trechos das sempre elucidativas instruções de Allan Kardec, Espírito, clareando o assunto através de mensagem contida em O Diário dos Invisíveis, psicografada por Zilda Gama ( páginas 73 a 75 da 1º edição, 1927, Editora O Pensamento):

“[…] Bem sabeis que a dor, física e moral é a lixívia que alveja a alma enodoada do ser consciente e responsável por seus atos; é a lâmpada que a inunda de luz, tornando-a eternamente radiosa”.

“[…] Se só o homem fosse suscetível à dor e às enfermidades e os irracionais os organismos imunes ao sofrimento, insensíveis como ao aço, romper-se-ia o elo que os vincula pela matéria, que é semelhante em todos os animais”.

“[…] Os animais, quer os de constituição semelhante à do homem, quer os de organismos imperfeitos, não padecem, como os racionais, unicamente para progredir espiritualmente, pois são inconscientes e irresponsáveis, mas Deus, que tudo prevê, não os fez insensíveis à própria defesa e conservação, como meio de serem domesticados, tornando-os úteis às coletividades”.

“Um cavalo que fosse indiferente à dor seria capaz de precipitar-se, com o cavaleiro, ao primeiro abismo que se lhe deparasse, tentando livrar-se da sela e da carga importuna que lhe tolhem os movimentos, privando-o de viver às soltas pela vastidão dos prados ou à sombra das florestas. Por que recuam, temerosos, ante a ameaça de um calhau ou de uma farpa, um cão ou um touro enfurecido? Com receio do sofrimento que teriam se fossem por eles atingidos”.

“[…] Os irracionais necessitam da dor para que possam, em estado de liberdade, defender a própria liberdade, defender a própria vida, temer as sevícias, sofrear os impulsos ferozes, procurar repouso e alimento, torna-se menos perigosos ao homem, manter o instinto de conservação, que não teriam se seus corpos fossem desprovidos de sensibilidade. O homem progride mais pelos padecimentos morais que pelos físicos; nos irracionais predominam estes sobre aqueles”.

“[…] A dor é útil aos animais para que os fracos e pequenos se defendam dos fortes e cruéis, procurando esconderijos inacessíveis a seus adversários nas furnas ou nas mais altas frondes”.

REENCARNAÇÃO DE ANIMAIS

Reflitamos:

– a reencarnação, como nós espíritas sabemos, é uma das sublimes bênçãos de Deus aos seus filhos – os seres vivos, todos; tal é o ciclo da Evolução, Lei Divina, amplamente exposta por Kardec em O Livro dos Espíritos e praticamente em todos os livros da Doutrina Espírita;

– um dos postulados da reencarnação, para seres humanos, é justamente o esquecimento do passado. Esquecimento, mas jamais perda da individualidade, da personalidade, do caráter;

– os animais, após a desencarnação, segundo Kardec (questão 600 de O Livro dos Espíritos), embora mantendo também sua individualidade, são agrupados e mantidos sob cuidados de Espíritos especializados; neles, a reencarnação não se demora;

– no livro Evolução em Dois Mundos, do autor espiritual André Luiz, psicografia de Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira, encontramos:

“A girencefalia (características do cérebros com circunvoluções, o que se possibilita uma maior área cortical – córtex. Exemplo: o cérebro dos primatas) e a lissencefalia (condição de cérebro sem circunvoluções, o que resulta em uma pequena área cortical), obedecem a tipificações traçadas pelos Orientadores Maiores, no extenso domínio dos vertebrados, preparando o cérebro humano com a estratificação de lentas e múltiplas experiências sobre a vasta classe dos seres vivos.

“À maneira de crianças tenras, internadas em jardim de infância para aprendizes rudimentares, animais nobres desencarnados, a se destacarem dos núcleos de evolução fisiopsíquica em que se agrupam por simbiose, acolhem a intervenção de instrutores celestes em regiões especiais, exercitando os centros nervosos” (capítulo IX, Evolução e Cérebro, páginas 67-68).

“(…) Nomearemos o cão e o macaco, o gato e o elefante, o muar e o cavalo, como elementos de vossa experiência usual mais amplamente dotados de riqueza mental, como introdução ao pensamento contínuo” (capítulo XVIII. Evolução e Destino, página 212).

– quanto aos seres mais evoluídos no reino animal, dentre os quais os cães, símios, bovinos, eqüinos, felinos (gatos, em particular), golfinhos e outros, embora não possamos afirmar com inteira convicção, é muito provável, mas muito tempo, que os criados em ambiente doméstico e que foram amados por seus donos talvez retornem ao convívio deles, num breve tempo após a desencarnação;

– o Amor é a mais sublime vertente do universo; foi por isso que o apóstolo João recitou: “Deus é Amor”! (I João, 4:8).

– Amor é a linguagem universal, entre todos os seres vivos. Fazemos essa citação para analisar que é muito provável que animais recém-desencarnados, embora não tenham condições de se manifestar, certamente recebem as boas vibrações de amor daqueles que os amaram, quando desencarnados;

– registramos, como simples suposição: em casa, temos 99% de suspeitas de que alguns dos nossos gatos(somos “gateiros de carteirinha”, embora minha esposa e meus dois filhos amemos a todos os animais)são a reencarnação de alguns que, conquanto tenham feito a Grande Viagem, deixando profundas marcas de saudade em nossos corações, são sim os mesmos. Pois só quem convive com gatos há 26 anos, como nós, por exemplo, pode perfeitamente avaliar os costumes dos felinos, cada qual tendo seu canto próprio, suas manias, sua linguagem, sua forma de demostrar gratidão, medo, carinho, fome etc.

Em casa, tivemos gatos que conviveram conosco por 14, 15 e até 16 anos. Atualmente (2005), só gatos “jovens” – “Baixinha” com 14 anos, a “Ventania”, com 8, e o “Dominó”, com 6.

Ora, quando um gato, dentre tantos, repete os mesmos gestos e apresenta os mesmos costumes, permitimo-nos conjeturar que pode ser a reencarnação de um daqueles que já havia morado conosco e que procedia exatamente assim.

– assim, dentro do quadro de animais domésticos desencarnados que foram amados por seus donos, sabendo que por pouco tempo permanecem no plano espiritual, embora não possamos afirmar com inteira convicção, é muito provável, mas muito mesmo, que retornem àquele convívio terreno, num breve tempo após a desencarnação. Não sendo improvável, da mesma forma, que se nossa desencarnação for próxima, à deles, talvez possamos encontrá-los no plano espiritual, considerado nosso patamar evolutivo e principalmente nosso merecimento.

– É uma esperança!

CASTRAÇÃO DE ANIMAIS

A resposta está em O Livro dos Espíritos, questão 693, com trechos que reproduzimos:
“693. São contrários à lei da Natureza as leis e os costumes humanos que têm por fim ou por efeito criar obstáculos à reprodução?”

“R: Tudo o que embaraça a Natureza em sua marcha é contrário à lei geral.”

“a) Entretanto, há espécies de seres vivos, animais e plantas, cuja reprodução indefinida seria nociva a outras espécies e das quais o próprio homem acabaria por ser vítima. Pratica ele ato repreensível, impedindo essa reprodução?”

“R: Deus concedeu ao homem, sobre todos os seres vivos, um poder de que ele deve usar, sem abusar. Pode, pois, regular a reprodução, de acordo com sua necessidades[..]”.

De nossa parte, consideramos a castração “mil” vezes preferível ao cruel do abandono, ou, mais grave ainda (se possível for), o abate das crias, dos filhotes.

Fonte: Revista Espiritismo e Ciência Nº38
Mithos Editora