Fundador ou Institucionalizador?


Etiene Sales – GhostMaster

A importância dos 100 anos da Umbanda vai muito além de Zélio, isso dentro do meu entendimento.

Fundador ou Institucionalizador?

Eu acredito em Zélio como um institucionalizador de algo que já existia em termos práticos, ou seja, o trabalho de guias como pretos-velhos, caboclos etc.

Zélio deu um nome (que já era conhecido dos Bantos e que podemos encontrar em um dos livros do Artur Ramos como sendo o sacerdote de uma Macumba aqui no Rio de Janeiro) e uma formatação, intitucionalizando uma forma de culto, chamando-a de Umbanda ou Alabama ou Aumbandam. Até hoje não se tem certeza do nome original, mas que acabou ficando como Umbanda.

O que era praticado antes do Caboclo das Sete Encruzilhadas, pelos guias nos Candomblés de Caboclos, nas Macumbas Cariocas (Omolokô), nas Juremas, nos Catimbós etc, pode ser considerado como Umbanda?

Se considerarmos o trabalho desses guias, a sua atuação e a sua essência, podemos dizer que sim. Porém, se considerarmos apenas a forma pela qual foi definida a institucionalização do culto de Umbanda pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, na constituição de suas casas, não podemos considerar como Umbanda qualquer outra forma (lembrando que Umbanda então, seriam apenas as casas que seguem na íntegra, sem misturas, o culto introduzido pelo Caboclos das Sete Encruzilhadas; qualquer coisa retirada ou acrescida a esse culto, já não pode ser considerada como Umbanda, vendo o Caboclo das Sete Encruzilhadas como seu Fundador e idealizador). Se esse contexto for dito como a verdadeira Umbanda, como a correta (a que foi institucionalizada por Zélio), ela inviabiliza quaisquer outras formas e práticas, assim como doutrinas, ritos ou fundamentos que não sejam aqueles formatados por Zélio e o Caboclo das Sete Encruzilhadas.

Existe Umbanda sem os guias?

Se considerarmos o trabalho precedente ao Caboclo das Sete Encruzilhadas, como já sendo Umbanda, na atuação de vários guias, ela simplesmente trilhou vários caminhos (a de Zélio era mais uma, e com a finalidade de institucionalizar a religião que já era praticada de forma desordenada), assim como o próprio Cristianismo formou várias crenças, várias religiões Cristãs pelo mundo.

Hoje, como acontecia nos anos 40 do século XX (na época do Primeiro Congresso de Espiritismo de Umbanda – até o nome Espiritismo soa estranho, pois mostra uma dependência de identidade da Umbanda dentro do Espiritismo, e não dentro dela mesma como uma religião autônoma ou como um conjunto religioso por si só), existem diversas formas de Umbanda (ritos, práticas, formas, doutrinas etc) diferentes. Muitas que nem sabem quem foi Zélio ou o Caboclo das Sete Encruzilhadas. Que foram formadas a partir das Macumbas, dos Candomblés, das Juremas, dos Catimbós etc. As quais os seus guias fundadores nunca, se quer, souberam ou citaram Zélio e, muito menos, o Caboclo das Sete Encruzilhadas como sendo fundador ou institucionalizador da Umbanda.

Muitas pessoas hoje em dia souberam de Zelio e, por conseguinte, seus terreiros, suas casas e até suas entidades, por meio de escritores como Rubens Saraceni, ou por meio das listas e sites na Internet.

Eu também não encontrei nenhuma referência ao termo Umbanda como constitutiva de uma forma de religião, nesses meus 22 anos de estudos, antes de 1908. Porém, encontrei referencias ao trabalho de entidades como pretos-velhos, caboclos, boiadeiros e até de exus, antes de Zélio.

Então temos que pensar: se retirarmos essas entidades trabalhadoras teríamos Umbanda? Ou só temos Umbanda porque temos o trabalho estruturado dessas entidades; seja separadamente ou em grupo?

Então para mim, como para outros pesquisadores, como Renato Ortiz, José Guilherme Cantor Magnani, Diana Brown, Yvonne Maggie e tantos outros, a representatividade daquilo que se chama Umbanda, não é dada pela anunciação do Caboclo das Sete Encruzilhadas, mas por algo que já existia antes dele, e que por ele foi institucionalizada, dado um nome e colocando como sendo uma religião de negros e índios, de excluídos, digamos assim. Formas e essências que se juntaram e foram se aglutinando ao longo do tempo, formando o que conhecemos hoje como Umbanda ou como um conjunto religioso chamado Umbanda.

Acredito eu que o mais importante hoje não é saber quem têm ou quem não têm a verdadeira Umbanda (ou se apenas aqueles que seguem o Caboclo das Sete Encruzilhadas são Umbanda – Mas tem que ser seguidor na íntegra e sem misturas ou adaptações, porque se isso ocorre já descaracterizou o que foi por ele colocado), mas sim todos nós, independente da forma, prática, doutrina e fundamentos (se veio ou não de Zélio, ou se nunca escutou quem ele foi), todos nós termos respeito e nos enxergamos como Umbandistas.

No passado e hoje em dia, continuamos errando e batendo na mesma tecla dogmática (e dizem que Umbanda não tem dogmas) da verdadeira Umbanda.

Que a verdadeira Umbanda é assim, que ela é assada; que a verdadeira Umbanda é a de Zélio ou de A, ou de B, ou C … E, pela lógica, se só existe uma proposição correta, as outras, por conseqüência, estarão erradas. Assim, se a Umbanda preconizada por Zélio é a verdadeira e a que tem que ser seguida, as outras estão erradas: não são Umbanda.

Muita gente ainda vê a Umbanda por essa lógica simplista e, se os demais não seguem a Umbanda preconizada por Zélio, a Umbanda Branca e verdadeira, então não estão fazendo Umbanda. Mas quem hoje em dia (como nos idos de 41) faz essa Umbanda? Nem nas casas institucionalizadas pelo caboclo das sete encruzilhadas se faz a mesma forma de Umbanda, ou fazem?

(pode atabaque, tem o título ou a função de Ogã, pode beber, pode fumar, se trabalha com exu, boiadeiro, marinheiro, baiano, corta-se porco, não se pode cortar …).

Eu acredito que temos que mudar o foco das verdades, da exclusão (exclusão essa que foi a espinha dorsal do mito da anunciação do caboclo das sete encruzilhadas, na federação Espírita de Niterói) das Umbandas.

Temos que partir para a inclusão e não para exclusão; nos vendo como um todo, um conjunto diverso e plural que é a Religião de Umbanda em todas as suas vertentes.

Enquanto os Umbandistas não se aceitarem como tais; enquanto houver discriminação intra-religiosa e super-valorização de algumas doutrinas como sendo Umbanda e de outras como não sendo Umbanda, nunca iremos nos unir de fato. Esse foi nosso erro do passado e continua sendo nosso erro de hoje.

A Umbanda, há muito tempo, já se tornou Ecumênica (um conjunto religioso diverso e plural), mas parece que a soberba e o dogmatismo de ser ou estar acima do outro, de ter a verdadeira verdade ou de se deixar acreditar que se tem a verdadeira verdade, está destruindo uma esperança de união.

Na época em que Zélio incorporou o caboclo e ele institucionalizou uma forma de culto, aquilo ali era contextual e necessário naquela época, naquele momento histórico. Hoje existem várias formas de doutrina dentro da Umbanda e é essa a nossa realidade de hoje.

Devemos lembrar também, que na época inicial do caboclo das sete encruzilhadas, ter a doutrina espírita como referência era a doutrina que se espelhava a Umbanda por ele preconizada.

Só que as coisas mudaram e a religião se transformou, se modificou, evoluiu em diferentes partes, se fundindo e assumindo outras formas, e manifestou outras doutrinas (vide os diversos livros tidos como “doutrinas Umbandistas” que, por vezes, são discriminatórios entre si ou cada um fala a sua própria verdade como sendo o todo da Umbanda; há casos até, em que são obras psicografadas, manifestando uma legitimidade do Astral Superior como uma codificação geral, para toda a religião).

Se não entendermos as modificações acontecidas na Umbanda ao longo desses 100 anos (essas transformações, essa evolução), nunca conseguiremos nos ver como um todo, nos respeitar como um todo, nos aceitar como parte desse todo que mudou e evoluiu: plural e diversificado.

Se o próprio Cristianismo se modificou, se transformou, se ramificou em diversas crenças, em várias religiões Cristãs diferentes, porque seria diferente com a Umbanda?

A Umbanda é uma religião ecumênica, diversa e plural. E só iremos alcançar uma união de fato e de direito quando todos nós nos enxergarmos como membros dessa diversidade e dessa pluralidade; num ecumenismo sem fronteiras para a espiritualidade.

Um contexto religioso onde não há Papas, Potestades com a única e verdadeira verdade, onde não há uma única doutrina codificada, mas diversas doutrinas irmãs e correlatas dentro de princípios básicos de caridade, amor ao próximo, paz, evolução e fraternidade.

É assim que vejo a Umbanda em seu todo e espero que um dia possamos nos unir, nos despindo do fantasma do dogmatismo, da exclusão e do preconceito.

Que tenhamos mais 100 anos de vida, mas com uma união ecumênica e fraterna, real e transparente.

Sem preconceitos de que isso não é Umbanda, você não pode ser Umbanda, a Umbanda só pode ser isso ou aquilo. Afinal, a Umbanda não tem donos, muito menos, um terreiro, centro ou tenda que possa dizer, com plenitude e firmeza, que pratica a verdadeira Umbanda em toda a sua abrangência.

Até porque, quem faz ou o que é a verdadeira Umbanda?

Que possamos ter 100 anos de respeito entre nós, buscando uma União e sem preconceitos, mágoas, ofensas, humilhações … 100 anos de valorização de todos os Umbandistas, respeitando um ao outro como irmãos de Umbanda (independente das formas e doutrinas), em uma cultura de alteridade e fraternidade.

Um abraço a todos,

Etiene Sales – GhostMaster

TITULO ORIGINAL: A Tristeza do Centenário da Umbanda em face de sua desunião e do preconceito entre os Umbandistas.