Carta Aberta a todos os Umbandistas!


Fortaleza, 02 de janeiro de 2007.

Caros irmãos umbandistas!

Meu sincero e fraterno Saravá a todos!

Em muito dos artigos publicados aqui no blog, apresentamos realidades às vezes cruas e nada agradáveis, que ainda existem no seio do movimento umbandista, no intuito de cooperarmos na formação de uma consciência crítica e de colaborarmos no alicerce de uma fé racional dos nossos irmãos. Não o fazemos por nos considerarmos donos da verdade ou melhores que os demais, mas por acreditarmos, que todos os umbandistas devem exercer o direito inalienável de opinião e discernimento, além de poder se expressar livremente. Devemos colaborar com a formação de uma filosofia moral e comportamental, que balize a atuação de todos nas coletividades umbandistas em que atuamos e na interação destas com a sociedade em geral. Já nos basta termos que enfrentar o preconceito, que ainda persiste na sociedade e na mídia. A nós umbandistas cabe aperfeiçoar o movimento e combatermos ferrenhamente as discrepâncias existentes. A bem da verdade consideramos tais realidades desagradáveis, como de exceção, mas bastante renitentes e que trazem consequências danosas, tanto ao nosso universo religioso como aos adeptos que os vivencia.

Enxergamos como solução para corrigir tais atos a formação de um espírito de corpo, de uma movimentação de massa, que busque sedimentar práticas vivenciais, que a médio e a longo prazo, produzam comportamentos saudáveis para o desenvolvimento da Umbanda como Escola de Vida Espiritual. Algo que ela já é, mas que em determinadas situações fica minada, pelos objetivos duvidosos de uma minoria estática e irremovível.

Sim, no seio do movimento umbandista existe uma resistência muito grande para mudanças, o novo, principalmente quando estes significam sair dos seus terreiros e interagir com outros terreiros. Não falo aqui nos eventos em que cada terreiro tem o seu espaço reservado e participam de uma festividade conjunta, como as festas de Yemanjá espalhadas pelo Brasil afora; me refiro sim, a conversar, compartilhar atividades, a trocar informações, disseminar conhecimento e debater assuntos comuns, correlatos e afins. Mais ainda, falo de ações sociais, de cidadania, culturais e educativas que colocariam o movimento umbandista antenado com as necessidades emergentes da sociedade e nos proporcionaria a inserção devida como participantes do novo contexto social e não mero pedintes de reconhecimento para a nossa existência religiosa.

Já crescemos suficiente para deixarmos de ser massa de manobra e culto religioso periférico. Também não temos a intenção, nem a vocação para nos tornarmos parte do folclore nacional, objeto de atração turística e foco das lentes de documentários televisivos e cinematográficos, que buscam, na necessidade da instantaneidade de suas gravações, o aspecto externo da Umbanda e não um aprofundamento de sua espiritualidade.

Quando citamos mudanças e o novo, reiteramos a necessidade urgente de assumirmos um papel de direito, que a soma de nossas coletividades já possuem de fato no panorama nacional. Temos uma expressividade absoluta no todo, somando adeptos e simpatizantes, que se torna relativa e quase inofensiva, por conta da divisão excludente que é semeada em nosso campo interno. Discutimos muito o que é e o que deixa de ser Umbanda. Disperdiçamos tempo demais na procura de uma originalidade, ou pureza, como desejam alguns. Quase 100 anos de Umbanda histórica e não percebemos, nem conseguimos entender que se a Umbanda tivesse surgido para ser codificada ela já teria sido, ou já surgida como tal?

As diferenças existem, estão aí para ficar, outras estão surgindo e muitas ainda viram. Motivos não faltam para arranjarmos como desculpas: a globalização, a segmentação, a democratização do conhecimento etc. O importante que isto é inevitável. Aprendamos pois, a conviver pacífica e respeitosamente com as diferenças e dirijamos os nossos esforços e atenção para as nossas semelhanças. Estas sim, de valores fundamentais para a nossa sobrevivência religiosa.

As semelhanças são que nos distinguem, nos marcam, nos identificam e nos fazem existir. As semelhanças são que nos caracterizam e nos definem religiosamente. Elas também flexibilizam o nosso acesso a diversidade de consciências, permitindo democraticamente que todos, que forem convidados, possam aceitar o chamado. As semelhanças são a verdadeira fonte de união e fraternidade em nosso meio. Elas nos fortalecem mais do que as diferenças possam nos dividir.

Falamos tanto em evolução, amor, caridade, fraternidade planetária e universal, sobre mundo espiritual, valores morais, éticos e por que não conseguimos implantar esta realidade entre nós?

Precisamos derrubar as paredes de nossos terreiros, não as físicas, mas as barreiras conscienciais que nos impede de dialogarmos francamente, de peito aberto com o nosso semelhante mais próximo, o umbandista de outro terreiro. Não podemos nos limitar a considerarmos irmãos, apenas aqueles que fazem parte da corrente mediúnica do terreiro que frequentamos.

Em nossos textos pontuamos de forma bastante acentuada as responsabilidades de Pai/Mães-de-Santo, ou seja, os dirigentes de terreiros, templos, tendas, centros etc., pois entendemos que os mesmos possuem um papel preponderante como facilitadores para construção dessa visão ideal, não utópica, mas plenamente realizável, ao se modificar pensamentos, renovar atitudes e produzir ações para transformação.

Ao assumirem os papéis de matriarcas e patriarcas de suas coletividades, Mães/Pais-de-Santo devem ser o exemplo.

Chega dessa história de demandas entre Pais/Mães-de-Santo com os seus pares de outros terreiros.

Chega desse medo que Pai/Mãe-de-Santo tem de perder filho-de-santo. Como se filho-de-santo fosse sua propriedade.

Chega desses contos da carochinha que disseminam inverdades, tais como: “Quem está fora não queira entrar, quem está dentro não queira sair”; “Olho viu, boca calou, nada pode acontecer”; “Quem deve paga, quem merece recebe”.

Chega de sermos induzidos a acreditar nas famigeradas “surras espirituais” dos Orixás e das Entidades.
Chega de termos que conviver com o medo constante de demandas de nossos Pais/Mães-de-Santo, por alguma falta que venhamos a cometer.

Chega de endeusarmos Pais/Mães-de-Santo e colocarmos em suas mãos todas as decisões de nossas vidas.

Nenhum deles é Deus. São seres humanos como nós. E assim como todos, responsáveis diretos pelos seus atos. Fadados ao erro tanto como nós. Mais ainda, como orientadores, facilitadores e educadores acrescidos de uma responsabilidade maior pelo que plantam, disseminam, ensinam e instruem. Quer queiram ou não eles são co-reponsáveis pelos nossos fracassos no caminho espiritual.
Por que? Porque assim eles se impõem. Caso contrário, não deveriam cobrar o crédito de nossos sucessos.

Diferente do que pensam estes, fraternidade não é realizar uma festa em um terreiro, convidar diversos Pais/Mães-de-Santo com seus filhos-de-santo e depois distribuir comida e bebida a vontade.
Isto é confraternização e confraternizaçào se realiza até em festa de aniversário.

Fraternidade na Umbanda é unir-se pela fé, compartilhar rituais e liturgias, mesmo que diferentes mas, semelhantes na busca do bem, do amor e da caridade. É reunir templos de umbanda em uma ação comunitária e/ou social etc. É produzir as condições necessários para o diálogo, a conversa, o debate de idéias e compartilhar conhecimentos, vivências e experiências. É somar em vez de dividir. É pensar a Umbanda, é contribuir efetivamente com o movimento umbandistae e não apenas na coletividade em que se atua, ou em um terreiro em particular.

A bem da verdade, a Umbanda, graças à Zambi, tem tido exemplos, de como isto pode ser alcançado.
Citamos o trabalho do CONUB – Conselho Nacional dos Umbandistas do Brasil, que com seus locutórios e ritos pela paz, já conseguiu reunir templos, terreiros, tendas etc., em diversas localidades no Brasil como Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Brasília e Porto-Alegre e em breve em outras cidades. A RBU – Rede Brasileira de Umbanda, que cada dia aumenta mais a sua rede de relacionamento, usando a internet como dissemidador do propósito de unir umbandistas e mudar a imagem que a sociedade possui da Umbanda. A FTU – Faculdade de Teologia Umbandista (SP), credenciada pelo MEC, portaria 3864, que além da formação acadêmica é promotora e geradora de liberdades, sendo uma fonte irradiadora de uma consciência para a Paz Mundial e do processo de superação das diferenças em todos os níveis. Podemos ainda falar das diversas listas de discussão sobre Umbanda na internet que democraticamente abrem seus fóruns para debates de temas os mais variados. A TV Saravá Umbanda que tem através dos seus programas on-lines na internet, disseminado o conhecimento e estudos relevantes a religião. E por fim as revistas e jornais umbandistas impressos e na internet que tem realizado um trabalho de divulgação ímpar do movimento.

Essa é apenas um pouco de quem está fazendo muito pela Umbanda e que está dando certo.

Todos umbandistas independente de cor doutrinária, segmentação, escola e/ou orientação rito-litúrgica devem apoiar e contribuirem com a participação, o trabalho e a fé.

Se não concorda, invente uma nova forma, mas faça alguma coisa.

A Umbanda agradece.

Feliz Ano Novo!

Namastê,

Caio de Omulu

UMBANDA SEM MISTÉRIO

LINKS:

CONUB – Conselho Nacional dos Umbandistas do Brasil

RBU – Rede Brasileira de Umbanda

FTU – Faculdade de Teologia Umbandista

TV Saravá Umbanda