A dor ensina a gemer…


Caio de Omulu

Existe um padrão que tem se repetido algumas vezes e que não havia me chamado a atenção, mas pela repetição despertou o meu interesse.

Trata-se da equação Oferta de Trabalhos Espirituais X Pedido de Trabalhos Espirituais.

Não entenderam? Explico melhor.

Acontece muitas vezes de nós umbandistas, sacerdotes ou não, termos a sensibilidade de percebermos a necessidade da realização de um trabalho espiritual, seja uma simples consulta, frente a determinadas situações das pessoas que nos cercam. Não falo daquelas pessoas que nos procuram já com esse objetivo, mas sim dos nossos entes queridos, amigos, colegas de trabalho, irmão umbandistas entre outras. As vezes em uma conversa informal e despretenciosa, nos deparamos com histórias e circunstâncias vivenciadas pelo nosso intelocutor, que ativam o nosso estado de alerta e despertam a nossa percepção para o sentimento de que algo espiritual deveria ser feito sobre o caso específico.

Imbuídos do espírito fraterno, na maioria dos casos nos oferecemos para realizarmos alguma ajuda, que venha sanar, solucionar ou resolver a questão em pauta.

Por acreditarmos nas coisas do sagrado, no mundo espiritual e suas leis de ação e reação, por sermos praticantes, militantes e principalmente termos fé e acreditarmos no aporte do mundo espiritual, rápido é o impulso que toma conta da gente e quando menos esperamos, lá estamos nós oferecendo ajuda. O problema começa exatamente no oferecimento.

A experiência tem me mostrado que oferecer-se não trás os resultados óbvios, ou seja, ajuda oferecida, oferecimento aceito.

Volta e meia ficamos com o sentimento de que ao oferecer a ajuda estamos forçando uma barra, como se diz, porque passado o primeiro instante, começa pela pessoa que queremos ajudar uma série de criações de obstáculos para que a mesma não se concretize.

De um lado ficamos nós os que enxergamos claramente a necessidade e do outro os necessitados obstaculizando a oportunidade oferecida.

Já me pertubei com tais momentos, já me melindrei por tais atitudes, já me aborreci bastante, até o ponto de me magoar com algumas pessoas.

Resumi a questão para preservar a minha auto-estima nos seguintes motivos: o necessitado não quer a ajuda, não precisa da ajuda, não acredita que possamos ajudar de fato, e, por fim, prefere continuar do jeito que está, pois sentirá falta do problema e suas consequências.

Esse último lembra bem o caso do obsediado que livre do obssessor o chama inconscientemente de volta por sentir falta da simbiose, ou do viciado que não tem atitude em relação ao vício, pois sentirá a ausência do estado vicioso e assim por diante.

Em contra-partida é possível chegar a conclusão, que quando a necessidade aperta o desespero de causa chega. Geralmente, é quando o caso está na casa do sem jeito. Busca-se então, de forma desenfreada, a ajuda anteriormente rejeitada.

Nos tempos da mágoas eu diria: “Nada como um dia atrás do outro e uma noite pelo meio”.

Hoje, mais maduro eu entendo que tenho que controlar melhor os meus impulsos salvacionistas (é difícil, as vezes ainda escapa) e esperar que realmente me seja formulado um pedido de socorro formal.
Para chegar essa conclusão, apenas me coloquei um dia no lugar do evangélico que tentou me abordar com a salvação, que eles costumam levar a todos. Diante da minha recusa veemente, imaginei o quanto esse evangélico deve ter ficado estupefato e sem compreender a minha atitude. Senti a sua dificuldade em aceitar o fato, que eu tinha recusado a solução, que para ele além de ser legítima é na convicção dele, a única capaz de resolver de forma inquestionável todos os meus problemas.

Os espíritas costumam dizer que: “Fora da caridade, não há salvação!”. Concordo, mas temos que ter o cuidado de não exaurirmos os nossos recursos (afinal eles também são nossa responsabilidade, perante a Lei Divina – lembremos sempre da Parábolas dos Talentos), de olharmos a necessidade real para tal caridade, de observarmos se a caridade que faremos ajudará de fato e finalmente se a pessoa está pronta para ser ajudada.

Caso contrário, ajuda ofertada, ajuda rejeitada, ou na melhor das hipóteses mal utilizada.

Tem certas horas que melhor é ficar calado e esperar que o sapato do outrem aperte. O tamanho da necessidade, em determinados casos, é que forja a humildade de se aceitar o que se oferece de bom grado e sem segundas intenções.

A dor ensina a gemer e o pedido de ajuda surge espontaneamente como consequência natural.
Com relação aos entes queridos e amigos, por uma série de motivos, o pedido de ajuda pode nunca mais ser colocado por eles outra vez.

No caso dos irmãos umbandistas, casa de ferreiro… É melhor que o espeto de pau da casa cuide do assunto da melhor forma e quando lhe convier.

No mais, uma certeza, antes de oferecer ajuda a alguém esteja completamente convicto que o ajudado realmente quer sua intervenção, ou melhor ainda, aguarde ele fazer a solicitação com todas as letras.

Por Caio de Omulu

UMBANDA SEM MISTÉRIO