O PERDÃO NÃO TEM CONTRA-INDICAÇÃO


As lembranças de uma infância atribulada ainda ressoavam na memória daquela senhora de meia-idade. Embora houvesse tentado não cometer os mesmos “erros”, equivocou-se na educação de seus filhos. Foram mimos demasiados, excesso de cuidado, e tudo isso os levou a sofrimentos inevitáveis.

Lembrava-se da mãe que, além do mau exemplo, traindo o marido a olhos vistos, não dava carinho nem atenção às crianças, além do pai alcoólatra e agressivo que fazia com que eles o temessem e não o respeitassem. Lembrava-se das noites de insônia provocadas pelo medo de que o pai cumprisse a promessa de matar a mãe, das vezes em que chorava baixinho, encolhida debaixo da cama, seu refúgio; lembra-se também da falta de diálogo, de conselho, de amor, da adolescência sem instrução sobre as transformações que o corpo sofria, da vergonha de levar os amigos para dentro de casa, das piadinhas que era obrigada a ouvir na escola sobre o desregramento dos pais e de como isso a machucava, pois, embora todos os defeitos, eram seus pais. Lembrava-se da morte do pai e da frase dita pela mãe que retumbava em seus ouvidos:

“Ainda bem que ele se foi. Só incomodava mesmo!”. Lembrava-se, ainda, de quando teve de sair de casa em plena adolescência para buscar seu destino. Tímida, inexperiente e medrosa, fora jogada nos braços da vida, tendo de aprender a duras penas que as pessoas mentem, logram, julgam, machucam.
Seu suor era seu sustento, e, apesar dos assédios, jurou que se manteria correta. Amores, desamores, alegrias e muitas dores fizeram sua caminhada.

Saudades da família. Mas que família? Saudades do pai, cuja figura era idolatrada pelas amigas, mas que, para ela, nem a lembrança que guardava chegava a ser boa. Sentia saudades da mãe que não dava notícias, embora soubesse que ela se sentia feliz por estar longe, já que não concordava com suas atitudes.

Depressiva pelo presente e pelo passado, passou a ter crises de culpa por não conseguir sentir amor por sua mãe. Em seu íntimo algo gritava “urgência” para resolver tal sentimento.

Em poucos dias chegou a notícia de que sua mãe estava muito doente. A idéia de que ela pudesse morrer em breve atiçou mais ainda sua consciência, que brigava entre o perdão e a mágoa da qual não conseguia se libertar.

Fazia algum tempo que começara a freqüentar um terreiro de Umbanda, onde gostava principalmente das palestras que ensinavam as pessoas a melhorar enquanto vivas, evitando sofrimentos posteriores.
Naquele dia solicitou uma ficha de atendimento, pois precisava desanuviar a mente.

– Saravá, zi fia!

O cumprimento do preto velho foi como um detonador das emoções represadas dela, que, sem responde, deixou as lágrimas saírem de seus olhos, em choro doído.

“Descarrega Umbanda, Vem descarregar, Descarrega a filha, Que ela é filha de Oxalá”

Cantava o preto velho, enquanto batia nas costas da mulher com um galho de arruda.

Colocando a mão em seu peito, fez lá suas mandingas para retirar uma mancha escurecida que se fixara no corpo astral dela. Aquela energia condensada já fazia parte de seu agregado qual simbiose, e ao ser retirada seu corpo físico, acusou a falta com uma ardência no local.

– Zi fia já estava acostumada com esse nó apertando o peito, mas é preciso desatar antes que o “batedor” canse de fazer força para continuar pulsando.

O preto velho, chamando o cambono, solicitou que ele pegasse um pano branco, água e algumas ervas, com o que fez um emplastro. Limpando à altura do fígado da mulher, com seu galho de arruda e algumas baforadas de seu cachimbo, segurou o emplastro sobre o local por algum tempo, enquanto, com sua voz pausada, esclarecia amorosamente:

– Zi fia está atribulada! Preto velho pode ver que dói o coração e que o alimento que engole já não assenta mais no estômago.

– É verdade. Vivo com indigestão.

– Preto velho vai dizer que a filha está sofrendo por causa da mágoa e para essa dor só há um remédio que não está à venda. A mágoa cria um casulo enegrecido que enclausura alguns órgãos, principalmente o fígado, impedindo-os de funcionar. Com o tempo, esses órgãos adoecem, e, se a energia persistir, de pouco adianta tratar o físico, pois, ao desencarnar, leva-se essa marca impressa no corpo astral, modelador do físico na próxima encarnação. Quantos seres ainda na infância precisam de transplante de órgão, sinal evidente de carma gerado em vida passada.

– Meu pai, eu não quero essa mágoa, mas não consigo me libertar dela. Minha mãe nunca fez nada para que eu a amasse, pelo contrário.

– Preto velho tem que perguntar uma coisa para a filha: quem foi que a pariu?

– Ela.

– Parir nem sempre atesta amor ou bondade, mas é a maior oportunidade que pode ser dada a um espírito necessitado de reajusta. Milhões deles, enfileirados, aguardam uma barriga que os aninhe, oportunizando a bênção do esquecimento das torturantes dores da consciência. Preto velho sempre fala que do outro lado não há aspirina. Lá a dor é dor, por isso a matéria é tão importante, pois é onde nos escondemos por um tempo precioso, além de poder, por meio dela drenar as impurezas que agregamos ao espírito ao longo da caminhada. Você, filha, era um desses espíritos ansiosos pela reencarnação. Por necessidade e afinidade, teve de vir por intermédios desses pais, pois, na execução das leis divinas, não existe acaso. No passado, foram filhos abandonados; hoje são pais omissos. É hora de encerrar o ciclo, de curar as desavenças, e cabe a você fazer isso. Não se omita, pois saiba que, se hoje você é a vítima, é sinal de que já foi algoz.

Veja sua mãe como um espírito que hoje precisa de sua compreensão e não de seu julgamento.

Deixe seu coração falar aproveitando que ele está querendo exercer o perdão. Vá até ela enquanto pode lhe ouvir e fale de suas dores, de suas mágoas, pois só assim vai aliviar seu peito. Depois, liberte o amor que deixou guardado por todos esses anos, num abraço de paz. Mate o passado, antes que ele faça isso com vocês duas. Descongestione seu fígado, filha.

Após esse dia a mulher se apressou para visitar sua mãe e fazer o que o preto velho aconselhara.
Conversaram e, entre lágrimas e risos, tiveram a oportunidade de conviver muito próximas durante apenas sessenta dias. O tempo de vida da mãe que lhe restava na Terra.

– Presta atenção, camboninho, a vida na Terra é como a fumaça do cachimbo do preto velho; num sopro ela se dissipa no ar. O tempo de Deus é diferente do nosso, por isso precisamos ficar alertas para os pedidos de nosso coração, que é o ouvido de nossa alma, por onde Deus se comunica conosco. Da vida temos que guardar as coisas boas e nos esquecer das más, para que possamos ser felizes. Levar entulhos como a mágoa para o além-túmulo é projetar dores desnecessárias para o futuro. Na bula do perdão a indicação é que se deve tomar uma dose dele várias vezes todos os dias: não há contra-indicação e a cura é certa.

– Saravá, zi fio! Até a volta! Nego veio abençoa em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo!

– Saravá, meu Pai! Proteção para seu aparelho também. Até a volta!

Leni Winck Saviscki

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