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XXIII

O CABOCLO DAS SETE ENCRUZILHADAS

Se alguma vez tenho estado em contato consciente com algum espírito de luz, esses espírito é, sem duvida, aquele que se apresenta sob o aspecto agreste, e o nome bárbaro de Caboclo das Sete Encruzilhadas.

Sentido-o ao nosso lado, pelo bem estar espiritual que nos envolve e sensibiliza, pressentimos a grandeza infinita de Deus, e, guiados pela sua proteção, recebemos e suportamos os sofrimentos com uma serenidade, quase ingênua, comparável ao enlevo das crianças, nas estampas sacras, contemplando, da beira do abismo, sob às azas de um anjo, as estrelas do céu.

Estava esse espírito no espaço, no ponto de interseção de sete caminhos, chorando sem saber o rumo que tomasse, quando lhe apareceu, na sua inefável doçura, Jesus e, mostrando-lhe , numa região da Terra, as tragédias da dor e os dramas da paixão humana, indicou-lhe o caminho a seguir, como missionário do consolo e da redenção. E em lembrança desse incomparável minuto de sua eternidade e para se colocar ao nível dos trabalhadores mais humildes, o mensageiro do Cristo tirou o seu nome do numero dos caminhos que os desorientavam, e ficou sendo o Caboclo das Sete Encruzilhadas.

E há vinte e três anos, baixando a uma casa pobre de um bairro paupérrimo, iniciou a sua cruzada, vencendo, na ordem material, obstáculos que se renovam quando vencidos e derrubados, e dos quais o maior é a qualidade das pedras com que de construir o novo templo.

Entre a humildade e a doçura extremas, a sua piedade se derrama sobre quantos o procuram e, não poucas vezes, escorrendo pela face do médium, as suas lagrimas expressam a sua tristeza diante dessas provas inevitáveis a que as criaturas não podem fugir.

A sua sabedoria se avizinha de onisciência (qualidade do saber divino, universal, uno, intuitivo, independente, infalível e eficaz). O seu profundíssimo conhecimento da Bíblia e das obras dos doutores da Igreja autorizam a suposição de que ele, em alguma encarnação, tenha sido sacerdote, porém, a medicina não lhe é mais estranha do que a teologia.

Acidentalmente, o seu saber se revela, uma ocasião, para justificar uma falta, por esquecimento, de um de seus auxiliares humanos, explicou, minucioso, o processo de renovação das células cerebrais, descreveu os instrumentos que servem para observá-las, e contou numerosos casos de fenômenos que as atingiram, e como foram tratados na grande guerra deflagrada em 1914. Também, para fazer os seus discípulos compreender o mecanismo, se assim posso expressar-me, dos sentimentos, explicou a teoria das vibrações e a dos fluidos, e numa ascensão gradativa, na mais singela das linguagens, ensinou a homens de cultura desigual as transcendentes leis astronômicas. De outra feita, respondendo a consulta de um espírita que é capitalista em São Paulo e representa interesses europeus, produziu um estudo admirável da situação financeira criada para a França, pela quebra do padrão ouro na Inglaterra.

A linguagem do Caboclo das Sete Encruzilhadas varia, de acordo com a mentalidade de seus auditórios. Ora chã, ora simples, sem atavio, ora fulgurante nos arrojos da alta eloqüência, nunca descem tanto, que se abastardem nem se eleva demais, que se torne inacessível.

A sua paciência de mestre é, como a sua tolerância de chefe, ilimitada.

Leva anos a repetir, em todos os tons, através de parábolas, por meio de narrativas, o mesmo conselho, a mesma lição, até que o discípulo, depois de tê-la compreendido, comece a praticá-la.

A sua sensibilidade, ou perceptibilidade, é rápida, surpreendendo.

Resolvi, certa vez, explicar os dez mandamentos da Lei de Deus aos meus companheiros e, à tarde, quando me lembrei da reunião da noite, procurei, concentrando-me, comunicar-me com o missionário de Jesus, pedindo-lhe uma sugestão, uma idéia, pois não sabia como discorrer sobre o mandamento primeiro. Ao chegar à Tenda, encontrei seu médium, que viera apressadamente das Neves, no município de São Gonçalo, por uma ordem recebida a última hora, e o Caboclo das Sete Encruzilhadas, baixando em nossa reunião, discorreu espontaneamente sobre aquele mandamento e, concluindo, disse-me: “Agora nas outras reuniões, podeis explicar os outros, como é vosso desejo”.

E esse caso se repetiu: – havia necessidade de falar sobre as sete linhas de Umbanda, e, incerto sobre a de Xangô, implorei, mentalmente, o auxilio desse espírito, e de novo o seu médium, por ordem de última hora, compareceu, numa alocução transparente, as nossas dúvidas sobre a quarta linha.

A primeira vez em que os videntes o vislumbraram, no início de sua missão, o Caboclo das Sete Encruzilhadas se apresentou como um homem de meia idade, a pele brônzea, vestindo uma túnica branca, atravessada por uma faixa onde brilhava, em letras de luz, a palavra “Caritás”. Depois, e por muito tempo, só se mostrava como caboclo, tanga de plumas, e mais atributos dos pajés silvícolas. Passou, mais tarde, a ser visível na alvura de sua túnica primitiva, mas há anos acreditamos que só em algumas circunstâncias se reveste de forma corpórea, pois os videntes não o vêem, e quando a nossa sensibilidade e os outros guias assinalam a sua presença, fulge no ar uma vibração azul e uma claridade dessa cor paira no ambiente.

Para dar desempenho a sua missão na Terra, o Caboclo das Sete Encruzilhadas fundou quatro Tendas em Niterói e nesta cidade, e outras fora das duas capitais – e todas da Linha Branca de Umbanda e Demanda.