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XXI

OS ORIXÁS

Cada uma das sete linhas que constituem a Linha Branca de Umbanda e Demanda tem vinte e um Orixás.

O Orixá é uma entidade de hierarquia superior e representa, em missões especiais, de prazo variável, o alto chefe de sua linha. É pelos seus encargos comparável a um general, ora incumbido da inspeção das falanges, ora encarregado de auxiliar a atividade de centros necessitados de amparo, e, nesta hipótese fica subordinado ao guia geral do agrupamento a que pertencem tais centros.

Os Orixás não baixam sempre, sendo poucos os núcleos espíritas que os conhecem. São espíritos dotados de faculdades e poderes que seriam terríficos, se não fossem usados exclusivamente em beneficio do homem. Em oito anos de trabalhos e pesquisas, só tive ocasião de ver dois Orixás, um de Euxoce (Oxóssi), o outro de Ogum, o Orixá Mallet.

E o Orixá Mallet, de Ogum, baixou e permanece em nosso ambiente, em missão junto às Tendas criadas e dirigidas pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas. Trouxe, do espaço, dois auxiliares, que haviam sido malaios na última encarnação, e dispõe, dentre os elementos do Caboclos das Sete Encruzilhadas, de todas as falanges de Demanda, de cinco falanges selecionadas do Povo da Costa, semelhantes as tropas de choque dos exércitos de Terra, além de arqueiros de Euxoce (Oxóssi), inclusive núcleos da falange fulgurante de Ubirajara.

Entende esse “capitão de Demanda” que as pessoas de responsabilidade nos serviços da Linha, necessitam, a quando e quando, de provas singulares, que lhes revigore a fé, e reacenda a confiança nos guias, e muitas vezes lhes dá, no decorrer dos trabalhas de sua direção.

Na vez primeira em que o vi, a sua grande bondade, para estimular a minha humilde boa vontade, produziu uma daquelas esplendidas demonstrações. Estávamos cerca de 20 pessoas numa sala completamente fechada. Ele, sob a curiosidade fiscalizadora de nossos olhos, traçou alguns pontos no chão, passou em seguida a mão sobre eles, como se apanhasse alguma coisa; alçou a sinistra e, abrindo-a, largou no ar três lindas borboletas amarelas, e, espalmando a destra na minha, passou-me a terceira.

– Hoje, quando, chegares à casa, e amanhã, no trabalho, serás recebido por uma dessas borboletas.

E, realmente, tarde da noite, quando regressei ao lar e acendi a luz, uma borboleta amarela pousou no meu ombro, e na manhã seguinte, ao chegar ao trabalho, surpreenderam-se os meus companheiros vendo que outra borboleta, também amarela, como se descesse do teto, pousava-me na cabeça.

Tive ocasião de assistir a outra de suas demonstrações, fora desta capital, a margem do Rio Macacú. Leváramos dois pombos brancos, que eu tinha a certeza de não serem amestrados, porque foram adquiridos por mim. Colocou-os o Orixá, como se os prendesse, sobre um ponto traçado na areia, onde eles quedaram quietos, e começou a operar com fluidos elétricos, para fazer chover. Em meio à tarefa disse:

– Os pombos não resistem a este trabalho. Vamos passá-los para a outra margem do rio.

Pegou-os, encostou-os as fontes do médium, e alçando-os depois, soltou-os. Os dois pássaros, num vôo alvacento, transpuseram a caudal, e fecharam as asas na mesma árvore, ficando lado a lado, no mesmo galho.

Passada a chuva que provocara, disse:

-Vamos buscar os pombos.

Chegamos à orla do rio. O Orixá, com as mãos levantadas, bateu palmas, e os dois pombos recruzando as águas, voltaram ao ponto traçado na areia.

Príncipe reinante, na ultima encarnação, numa ilha formosa do Oriente, o delegado de Ogum é Magnânimo, porém, rigoroso, e não diverte curiosos: – ensina e defende.

Exigem os seus trabalhos, tantas vezes, revestidos de transcendente beleza, a quietude plana dos campos, a oxigenada altura das montanhas, o retiro exalante das flores ou a largueza ondulosa do mar.