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XVII

O DESPACHO

O despacho, nas Linhas Negras, é um presente, ou uma paga, para alcançar um favor, muitas vezes consistente no aniquilamento de uma pessoa.

Quando o feiticeiro trabalha sozinho, isto é, sem o auxílio de espíritos, o despacho representa uma concentração que se prolonga, por diversas fases; se com esses auxiliares, visa atirá-los contra o indivíduo perseguido; se é da magia, contém, ainda, os corpos cujas propriedades devem ser volatizadas.

Assim, o despacho varia nos elementos componentes e na preparação, conforme o seu objetivo e a natureza das entidades que o realizam, e como as espirituais são materialíssimas, e de gosto abaixo do vulgar, a oferta lhes revela essas qualidades. Pergunta-se, com espanto, se aqueles aos quais se destina a oferenda comem as comedorias que por vezes lhe são levadas. Certo, não as comem, mas extraem delas propriedades ou substâncias que lhes dão a sensação de que as comeram, satisfazendo apetites contraídos na vida terrena, ou adquiridos no espaço, pelo exemplo de outros, a que se abandonaram.

O despacho exerce a sua influência de quatro maneiras: pela ação individual do feiticeiro, em contato fluídico com a vítima; pela ação das entidades propiciadas, causando-lhe exasperações, inquietando-a, atacando-lhe determinados órgãos, perturbando-lhe o raciocínio com sugestões telepáticas, dominando-lhe o cérebro, produzindo moléstias e até a morte; pelo reflexo das propriedades volatizadas e corpos usados pela magia, e pela conjugação de todos esses meios.

A Linha Branca de Umbanda anula esses despachos por processos correlatos. Quando se trata da atuação individual do feiticeiro, desvia o seu pensamento, deixando-o perder se no espaço, para dar-lhe a impressão de sua impotência e evitar o choque de retorno, que lhe demonstraria que o seu esforço foi contrariado, estimulando-o a recomeçá-lo. Propicia às entidades em atividade prejudicial, ofertando-lhes um despacho igual ao que as moveu ao maléfico, afim de que elas se afastem do enfeitiçado, e freqüentemente faz outro despacho aos espíritos das falanges brancas, mais afins com a pessoa a quem se defende, com o objetivo, este segundo despacho de atraí-las, por meio de uma concentração prolongada, para que auxiliem a restauração mental e física de seu protegido. Volatiza as propriedades de corpos suscetíveis a neutralizar os que foram empregados pela magia. Conjuga todos esses recursos, e quando as entidades propiciadas recusam os presentes e insistem na perseguição, submete-as com energia.

Os despachos aos elementos da Linha Negra, isto é, a Exu, ao povo da Encruzilhada, são feitos nos lugares que lhe deu essa designação. Os destinados a atrair os socorros dos trabalhadores da Linha Branca, de ordinário simples e não raro de algum encanto poético; fazem-se alguns, tais os de Euxoce (Oxóssi), e Ogum, nas matas; outros, como os de Xangô, nas pedreiras; muitos, e entre esses os de Amanjár (Iemanjá) nas praias ou no oceano; e aqueles, a exemplo dos de Cosme e Damião, que se dirigem aos espíritos dos que desencarnaram ainda crianças, no macio gramado dos jardins e prados floridos.

Estranha-se que a Linha Branca de Umbanda, trabalhando exclusivamente em benefício do próximo, tenha, alguma vez, realizado despachos com Terra de cemitério. Explica-se com facilidade a razão que a obriga, em certas circunstâncias, a esse recurso extremo.

Localiza-se nos cemitérios uma vasta massa de espíritos inconscientes, semi- inconscientes; ou tendo uma noção confusa da morte e fazendo um conceito errôneo de sua triste situação: – é o chamado povo do cemitério. A magia negra e os feiticeiros os atraem e aproveitam para objetivos cruéis, de uma perversidade revoltante. Com freqüência, quando um desses espíritos, perde de todo a noção de sua individualidade, convencem-no de que ele é uma determinada pessoa ainda viva no mundo material, e mandam-no procurá-la, para tomar conta do seu corpo. Na sua perturbação, com os fluidos contaminados de propriedades cadavéricas, ele, na convicção de ser quem não é, encosta-se ao outro, num esforço desesperado de reintegração, transmitindo-lhe moléstias terríveis, abalando-o mentalmente e até arrastando-o ao campo santo, a procura da tumba. Para desfazer esse sortilégio, com os cuidados devidos ao espírito infeliz e a pessoa a que ele se apegou, é necessário recorrer ao meio de que lançou mão, para produzir o mal, a magia negra.

Na noite das grandes meditações piedosas, quando, através de oceanos e continentes, a cristandade comemora, com sentimento uníssono, o martírio de Jesus, o Cristo, é que se fazem os mais funestos despachos macabros da banda negra. Violam-se túmulos, roubam-se cadáveres, profana-se a maternidade, em operações de magia sobre o ventre de mulheres grávidas, e uma onda sombria de maldade se alastra, espalhando o sofrimento e o luto.

A Linha Branca de Umbanda não pode cometer, mesmo na defesa do próximo, sacrilégios e profanações, e conjuga a ação combinada de suas sete linhas para dominar essa torrente de treva nefasta. A linha de Xangô, sobretudo, se consagra a reparação do que foi destruído, a de Amanjár (Iemanjá) lava e limpa o ambiente, as de Oxalá e Nha-San (Iansã) amparam os combalidos, enquanto os sagitários de Euxoce (Oxóssi) e falange guerreira de Ogum dominam e castigam os criminosos do espaço.

E, no entanto, o pobre filho de Umbanda templário da ordem branca, surpreendido pela polícia a hora de arriar o despacho, sofre o vexame da prisão e o escândalo dos jornais porque sacrificou o seu repouso a defesa e ao bem estar do próximo.