06


VI

MATERIALIZAÇÃO

O estudo cientifico do espiritismo, com objetivo experimental, não deve ser feito em locais onde se realizem trabalhos espíritas de outra natureza. Sei, por experiência própria, que nos centros de caridade os resultados dessas tentativas são mais ou menos precários, pois os espíritos chamados sofredores invadem o recinto e perturbam as observações, sem que a finalidade dos centros permita afastá-los.

Todos os pesquisadores que no Brasil chegaram à constatação positiva dos fenômenos de materialização efetuaram suas experiências em instalações especiais.

O ilustre médico Dr. Oliveira Botelho, ministro da Fazenda, no último governo constitucional, viu operar-se diante de seus olhos a ressurreição transitória de uma de suas filhas, por ele conduzida ao cemitério, sendo também consagradas pelo êxito pleno, outras das experiências realizadas sob fiscalização rigorosa pelo sábio, engenheiro Dr. Américo Werneck, e algumas das quais assisti.

O Dr. Werneck mandara preparar instalações adequadas à fiscalização, gradeando-as a ferro. Coube-me, de uma feita, a incumbência de exercê-la. Abri e fechei a única porta de acesso ao recinto, conservando comigo a chave; introduzi na sala as outras pessoas convidadas para a reunião; examinei o camarim destinado a retenção do médium; a mesa e as seis cadeiras existentes na sala.

Para não dar caráter religioso à reunião, o Dr. Werneck não fez a prece inicial das sessões espíritas, limitando-se a pedir aos crentes que fizessem breve oração mental. Entramos no recinto, sob a minha fiscalização, seis pessoas além do médium, e meia hora depois éramos doze, sendo que as seis que eu não introduzi, moviam-se a maneira de sombras hercúleas, falando entre si. Duas delas em seguida assumiram proporções normais de estatura. Pergunto-lhes o diretor dos trabalhos se lhes serias possível fazer ressoas o teto da sala e, imediatamente, por cima de nossas cabeças, estrondearam golpes fortes, repetindo-se por muitas vezes. Aproximando-se do lugar onde eu me achava, observou uma das sombras de contornos humanos:

Está com medo que lhe roube a chave.

Eu apertava, de fato, por dentro do bolso, a chave da porta da sala de experiências.

Dissipados esses fantasmas, ocorreu o fenômeno principal da noite.

Uma pulverização lactescente de luas cintilou na escuridão da sala, traçando, à medida que se condensava em desenho nítido, uma figura humana, ate que transformou, aos nossos olhos, numa linda mulher moça, de longos cabelos soltos, vestindo um roupão branco rendado.

Era, disseram-nos, a esposa do Dr. Werneck falecida aos 25 anos, e não deixava de ser emocionante a sua aparição, na plenitude da mocidade, ao lado do esposo septuagenário.

-A Judith, tinha um caminhar embalado, disse um dos assistentes, habituado as materializações desse espírito.

– Judith, ande um pouco, pediu o engenheiro.

E, num circulo de luz espiritual, que a tornava plenamente visível, a ressurreta percorreu a ampla extensão do recinto, agitando em ondulações a brancura de suas vestes, e como eu era um dos presentes, que não assistira as suas materializações anteriores, acercou-se de mim.

– Veja. Será a mão de uma morta? E tocou-me na mão.

Era tépida. Louvei as rendas de seu vestuário, e ela, erguendo o braço, em curva graciosa, estendeu-as; a da manga, sobre as minhas mãos:

-Pode ver. São antigas.

Ousei insinuar:

– Como seriam as sandálias, no seu tempo…

– No meu tempo eram chinelas, respondeu, e caminhando até a mesa existente no fundo da sala, voltou uma pequena bilha e um copo.

Ofereceu e serviu água a todos os assistentes, trocando frases com eles, e depois de cumprimentar-nos, avisando que se retirava, repôs a bilha e o copo na mesa, e começou a esbater-se, desfazendo-se até desaparecer.

Também no Estado do Pará, em Belém, antes das desta capital, verificaram-se e foram até oficialmente constadas em atas assinadas pelo presidente e pelo chefe da policia do Estado, admiráveis materializações alcançadas com a médium Anna Prado.

Testemunhou-se também, e descreveu-as, o Sr. M. Quintão, que fez uma viagem ao norte para observá-las e viu um espírito materializado modelar a mão em cera de carnaúba, quente.

Os guias que trabalham com o Dr. Werneck, disse-me este, eram enviados de João, o espírito que trabalhava com D. Anna Prado. Deve, pois, haver analogia entre as materializações desta capital e as de Belém, que o Sr. M. Quintão assim descreve:

“A ansiedade do auditório era grande, profundo silêncio, quando alguém exclamou: – Eis o fantasma, a desenhar-se no canto da câmera escura, à direita. Não o vê? Não víamos… Olhe agora, ali, no outro canto, junto à parede.

“De fato, no canto indicado a nossa frente, oscilava como que um lençol, uma massa branca, que se foi condensando; e resvalando-se, cosida a parede – não havia três metros da câmara ao lugar em que me encontrava – chegando ao ponto em que estavam os dois baldes já de nós conhecidos e uma garrafa com aguarrás, destinada a temperar a cera para a confecção dos moldes e flores.”

“O fantasma, sempre mais nítido, insinua-se bem perto, estaca de fronte do balde. Fixamo-lo a vontade: era um homem moreno, orçando pelos seus 40 anos, trazendo a cabeça um capacete branco, pelas mangas largas de amplo roupão também branco, saiam-lhe as mãos trigueiras e grandes. Os pés, não lhos divisamos.”

“Chegou, cortejou, palpou os baldes, ergue com a mão direita o que continha a cera quente com a esquerda, elevando a garrafa de aguarrás à altura do rosto, como que dosou o ingrediente. Depois se arriando o balde, como para confirmar o seu feito, arrastou-o no chão, produzindo o ruído característico natural. Os seus gestos e movimentos eram perfeitos, naturais, humaníssimos, como se ali estivesse uma criatura
humana. Isto posto, afastou-se e conservou-se a um canto da câmara escura, enquanto do outro canto surgia uma menina de seus treze anos, que dá o nome de Anitta.

Assim, tivemos uma dupla manifestação. Visíveis ao mesmo tempo, João, um homem, e Anitta – uma quase criança, enquanto ouvíamos iterativamente o médium suspirar na “câmara escura” e o Sr. M. Quintão largamente descreve as atitudes e ação dos fantasmas, nessa e em outras reuniões.

De algumas das materializações verificadas em Belém, tiraram-se fotografias, mediante uma fórmula especial, constante do livro “O trabalho dos mortos” do Senhor Nogueira de Faria.

Como se sabe, o espírito se materializa com os fluidos do médium. Entrando este em transe, começa a constituição do fantasma, e ao passo que a sua forma se acentua, o médium como que de perece, às vezes respirando em haustos e, não raro, exalando suspiros quase angustiosos. Os guias desses trabalhos exigem que não se aperte a mão, nem órgão algum do espírito materializado, porque imediatamente o médium se recente e com freqüência adoece.