POR QUE COBRAR?


Julio Cezar Gomes Pinto

Saravá, Irmãos!!!

Ao que parece, há uma certa tolerância de alguns umbandistas para o assunto das cobranças pela caridade..

Existe uma corrente que justifica determinadas cobranças monetárias pelos serviços realizados nos terreiros de Umbanda ou em casas que assim se denominam.. Não é de hoje que diversos “filhos de fé” praticam atos que não estão de acordo com o que foi anunciado há cem anos como parte do ritual do “novo culto” que ora se instalava nos solo brasileiro.

Em nome do que chamam de “pagamento pelo chão”, ou “pagamento pelo jogo”, ou algo semelhante, umbandistas de várias vertentes da religião disseminaram uma prática que já foi combatida por todos os antigos e grandes decanos do passado.

Explicaram, baseados em uma conversa muito bem elaborada e verossímil, que o pagamento pelos seus serviços de auxílio ao próximo são legítimos e corretos. “Não há mal algum nisso”, defendem-se.

A máxima que define a Umbanda: “manifestação do espírito para a caridade”, já ficou sem sentido.
Essas palavras não encontram eco nas esquinas ou fundos de quintal onde se encontram umas casinhas com placas que as identificam como terreiros de Umbanda.

Uma observação mais apurada revelará o esquema que ali ocorre sob a anuência dos próprios freqüentadores do lugar.

Ali, debaixo do silêncio de algum Pai Preto ou Caboclo, a troca da caridade por qualquer valor material é realizada sem pro textos ou rubor de faces. Afinal, alguém tem que pagar!
Naquelas casinhas observa-se o tão sincero e simpático paizinho de santo incorporado por seu mentor falando humilde e cheio de simplicidade. Mas, ao seu lado, em posição de guardião, aquele que vai estender a mão para solicitar o pagamento devido. E a entidade ainda dá um sorriso cordial e roga-lhe as bênçãos dos céus.

Na outra casinha de umbanda mais adiante, parecida até com uma tenda, um outro médium caracterizado de oriental pelas roupas e adereços minuciosamente produzidos para tais momentos movimenta as mãos com diversas cartas coloridas e cheias de figuras simbólicas na frente de uma mulher desesperada. A mulher está com os nervos em frangalhos porque o marido que ela tanto ama está diferente e prestes a abandonar o lar. Ela quer saber se isto vai acontecer de fato, ou se é apenas paranóia de uma mulher neurótica.

O médium diz que precisa “ler” nas cartas, mas que para isto deve receber as moedas correspondentes. “Não vou conseguir ver o seu futuro se você não pagar pelo jogo”, declara o médium. Isto não é caridade, explica. Ora, não é caridade o socorro que ele vai prestar àquela mulher desesperada, portanto a sorte está lançada. Azar o dela, se as cartas disserem que o fulano já está com outra… Mas, o dinheiro tem que estar na mão do jogador, antes que a verdade venha à tona.

Mais uma casa adiante e uma nova surpresa: lá está a mãezinha tão doce do terreiro de umbanda que se ergue num bairro próximo. Ali, na casa dela, território particular, domínio seu, a coisa muda.
Lá no terreiro, tudo é de “grátis”. Lá, quem manda é “cabocro”, mas ali quem dá o preço é a “Mãe Maria da Consolação Anunciada do Rosário Nazareno d’Oxum”. E como ela sabe jogar os búzios!

No terreiro ela não pode, mas na sua residência ou consultório particular, sim… pode! Ali, na casinha com plaquinha de Umbanda, a mãezinha sacoleja vários búzios e despeja-os sobre uma cestinha de palha. Um olhar compenetrado… Uma expressão instigante… Um silêncio mortal… e a declaração oriunda do além.

Depois do jogo, tudo pago conforme reza a cartilha, um pequena receita que vai lhe custar uma grande quantia. Mas, não há nenhuma garantia de que tudo vai funcionar. Vai depender do merecimento, ou da fé, ou da Vontade de Zambi, ou do Carma, ou dos Irmãos Espirituais, ou do Exu, ou da Pomba Gira, ou da mente, etc, etc, etc.

Se alguma coisa der errado, não há problema, pois o “pagamento” já foi efetuado através do cartão de crédito ou em espécie. Cheque…?!, Nem pensar!!!

Será que tudo isto foi previsto há Cem Anos atrás?

O chicote do Mestre só serviu para os do Templo de Salomão?

Será que o pagamento pela Escravatura da Colônia está sendo cobrado hoje?

O que mais falta acontecer?!

Ah, sim… Falta pagar o passe!

O passe deixou de ser livre.

Reflitam!

Deus Salve a Umbanda!

Atenção: Qualquer semelhança com fatos, nomes, pessoas ou atitudes terá sido mera coincidência!

Julio Cezar Gomes Pinto

Casa de Caridade Santo Antônio de Pádua



Obrigado irmão Julio Cezar por permitir este texto em Povo de Aruanda.