POVO DE ARUANDA

ANUNCIE AQUI! povodearuanda@povodearuanda.com.br

Posts Tagged ‘Vovó Catarina’

A essência em detrimento das formas

Posted by Administrador em maio 26, 2009


Compre o livro clique na imagem!

Dona Margarida era uma senhora que já passava dos sessenta anos de idade, embora seu dinamismo não demonstrasse, aparentando ser muito mais jovem. Sempre alegre, disposta e conversadeira, era conhecida e querida por todos do bairro onde morava. Parteira aposentada, trabalhara como enfermeira num hospital público por muitos anos e vivia modestamente fazendo um trabalho voluntário na creche perto de sua casa.
Nunca havia parido, mas considerava-se meio-mãe de quase uma centena de crianças. Certo dia, observando, da janela de sua casa, a meninada brincar na rua, percebeu que uma senhora distinta e desconhecida, ao chegar próximo de seu portão, benzeu-se com o sinal da cruz e atravessou a rua rapidamente. Estranhou o gesto e até desceu a rua para verificar se havia algo estranho por ali, nada observando. Curiosa, perguntou a um dos meninos se conhecia aquela senhora, e foi informada de que se tratava de moradora nova do bairro. Ainda segundo o menino, soube que era uma carola da igreja.

Dona Margarida, em sua simplicidade, não deu mais importância ao fato, até o dia em que, entrando na quitanda de seu Zé, encontrou-se com a senhora e pôde perceber seu mal-estar com sua presença. A mulher rapidamente deu-lhe as costas e outra vez fez o sinal-da-cruz disfarçadamente. Foi impossível não se sentir embaraçada com aquilo, e, quando ela saiu, comentou com seu Zé e foi informada:

- Seu nome é Eleonora, professora aposentada. Hoje ela se dedica em tempo integral à Igreja Católica, coordenando vários setores dos trabalhos prestados nas capelas. Comentou com minha esposa que fez um levantamento aqui em nosso bairro para avaliar o número de famílias católicas. Vai cadastrar todas e fazer apelo para que compareçam à missa todos os domingos, além de pedir que se desvinculem das visitações ao Centro de Umbanda a que estão acostumados, pois, segundo ela, “é prática primitiva e perdição dos cristãos”.

Estava explicado! Dona Margarida era a dirigente do terreiro de Umbanda onde as pessoas buscavam ajuda, não importando a religião que seguiam. Um misto de tristeza e pena foi o que passou pelo coração de dona Margarida, mas, como não sabia guardar mágoas, logo esqueceu. Em tantas outras ocasiões aconteceram encontros inevitáveis entre Eleonora e pessoas que moravam perto de dona Margarida. Voltava a se repetir o mesmo embaraço. Muitos comentários chegavam até os ouvidos de dona Margarida sobre os sermões dominicais, quando o tema “Umbanda” era abordado e os fiéis eram alertados sobre o perigo daquela prática – segundo eles, demoníaca. Dona Margarida também soube que a senhora católica havia passado para os moradores do bairro um abaixo-assinado que ela apresentaria posteriormente à Prefeitura Municipal, pedindo o fechamento do centro de umbanda, alegando que o som dos atabaques e a cantoria até tarde da noite incomodavam os vizinhos, além de alegar que os freqüentes “despachos” nas esquinas eram um “perigo iminente à população”, ocasionado pelos umbandistas.

Querendo ou não, dona Margarida estava se abatendo com todos os rumores; afinal, sempre vivera-se em paz naquele lugar, independentemente do credo religioso, da cor da pele ou da condição socioeconômica dos moradores. Por isso, naquela noite, após o atendimento ao público no terreiro, vovó Catarina, a preta velha protetora de dona Margarida, reuniu a corrente de médiuns e se manifestou:

- Saravá aos filhos de fé! A preta velha e os outros manos que aqui vêm prestar a caridade estão observando que os filhos andam preocupados com os acontecimentos. Embora não estejamos mais na época da escravidão negra, ainda as sombras insistem em escurecer o coração de algumas criaturas que são instigadas a escravizar outras, segundo sua vontade e seu poder. Enquanto existir a ignorância em lugar da busca do conhecimento e enquanto o egoísmo ocupar o lugar destinado ao amor no coração das pessoas, existirão portas abertas por onde as trevas se infiltram para desarmonizar o mundo. Os escravos, para exercer seu culto aos Orixás, precisaram enganar os senhores com o sincretismo. Hoje existe a liberdade de crença, de culto, mas existem as leis dos homens, que precisam e devem ser respeitadas. Por isso, esta preta velha vem pedir aos filhos que respeitem a lei do silêncio e retirem os atabaques do terreiro. O pedido da preta velha caiu como algo fúnebre sobre a corrente, levando alguns a argumentar:

- Minha mãe, com todo respeito, nosso trabalho vai ficar descaracterizado!

- O filho sabe que não é o som dos atabaques que deixa a caridade que aqui é prestada mais ou menos eficiente ou agradável aos olhos do grande Pai Zambi. Da mesma forma que a altura com que são cantados os pontos não interfere na qualidade do trabalho efetuado, mas sim e apenas o amor e a dedicação que os filhos derramam de seus corações. São apenas costumes que podem ser mudados, e, se aos olhos do mundo lá fora é isso que incomoda, de nada custa cortar os galhos, se são eles que incomodam a janela do vizinho, antes de ter que sacrificar a árvore inteira.

- Eles estão sendo injustos conosco, minha mãe. Acusaram- nos de efetuar despachos nas esquinas, e a senhora sabe que isso não faz parte de nosso culto.

- O filho referiu-se ao termo certo: injustiça. Se nada devem, nada temam. O tempo se encarrega de mostrar a verdade. Por isso os manos da espiritualidade insistem seguidamente com a corrente para que estudem e se atualizem, evitando falsas crenças, procurando fazer da amada Umbanda “uma banda só”, evitando muitos ritos inúteis e misturas confundíveis e desnecessárias. É preciso que todos os umbandistas procurem entender que a magia é mental e que os materiais usados apenas catalisam as energias, sendo necessários somente enquanto as mentes acostumadas ao fenômeno físico ainda não estiverem adestradas. Que se deixe de confundir “oferendas” que não têm nada de ofensivo às pessoas, nem ao sítio sagrado da natureza, com os despachos que causam mal-estar aos transeuntes de vossas cidades e que deixam espalhados materiais perigosos como vidros quebrados, além da exposição de animais em decomposição, quando não, de bonecos alfinetados, nada agradáveis aos sentidos da visão e do olfato. Por que então não substituir o tão agradável som dos atabaques pelo som de uma leitura instrutiva e evangelizadora aos consulentes e à corrente mediúnica? Quem sabe é hora de os filhos pensarem na formação de uma escolinha aos pequenos, ensinando-lhes sobre a realidade da umbanda, renascida em solo brasileiro, mas de origem ancestral, de maneira a esclarecer os espíritos desde cedo e, assim, desmistificar a visão distorcida desse culto sagrado.
Nada como esclarecer, como ensinar para que se desfaçam os equívocos. Já passou o tempo em que apenas a fé, mesmo irracional, bastava. O mundo evoluiu, e é preciso que tudo e todos se ajustem a esse processo.
Prova disso está na tirania que se exerce sobre mentes desavisadas, que, condicionadas a uma fé irracional e milagreira, entregam tudo o que possuem a certos pastores de religiões que se dizem cristãs. É preciso discernimento do médium que trabalha na magia, pois ela é uma faca de dois gumes. Os necessitados que batem à porta do terreiro, se esclarecidos sobre a parte que lhes cabe nas mudanças de atitude, deixarão de mistificar a Umbanda como a “milagreira das horas de apuro” e passarão a respeitar o culto como ele merece ser respeitado. Se mentem, cabe aos filhos desmentir com atitudes justas, nunca com revides. A umbanda hoje, meus filhos, pela vibratória de Xangô, atua em vosso mundo de forma instigante, para que se exerça a justiça em todos os setores da sociedade. Nada temam, não enfraqueçam vossa fé e fiquem alerta para a verdadeira caridade, nunca julgando quem quer que seja. “Todos” que aqui aportarem deverão ser atendidos com amor e respeito.

Embora atentos, talvez nem todos entenderam a última frase de vovó Catarina. Naquele terreiro, a partir daquela noite, calou-se o som dos atabaques. Demorou um tempo até que os médiuns se acostumassem com aquilo. Mas, diante de várias tarefas a que se ligaram, como a fundação Escolinha de Umbanda Cosme e Damião, onde havia curso para os pequenos e para os adolescentes, além do estudo mensal da corrente mediúnica e das palestras esclarecedoras para os consulentes, pouco tempo restou para chorar o leite derramado. Como bem dizia vovó Catarina, “mente ocupada no serviço da caridade é ferramenta afiada, e preta velha gosta de cortar mironga com ela … eh eh”.

Os ânimos haviam se acalmado, e dona Margarida estava se acostumando com o benzimento costumeiro da beata, sempre que o acaso as levava a se encontrar. A conselho da preta velha, cumprimentava Eleonora educadamente e mentalmente a abençoava. Certa manhã, ao chegar à quitanda, percebeu certo tumulto que se fazia lá dentro. Logo verificou que alguém se debatia no chão, acometido de aparente ataque epiléptico.
Chegando mais perto, viu ser dona Eleonora. Sem demora, tomou providências, afastando as pessoas que, assustadas, em vez de ajudar, sufocavam-na. fechando um círculo ao seu redor. Dona Margarida sabia como lidar com a situação por causa de seus longos anos de dedicação à enfermagem. Arregaçou então suas mangas, abriu a gola apertada da camisa da vítima, rasgou um pedaço de tecido de sua própria saia e, enrolando-o em seu indicador, salvou Eleonora de asfixiar-se com a própria língua. Fez todos os procedimentos de praxe, e, aos poucos, aquela senhora voltava a si outra vez, sem entender o que havia se passado, agora sendo aconselhada por dona Margarida a procurar imediatamente um médico.

Muito tempo depois desse fato, certa noite, quando os atendimentos já findavam no terreiro e as portas eram fechadas para que a corrente mediúnica pudesse encerrar os trabalhos, uma senhora de óculos escuros e com um lenço amarado na cabeça cobrindo parte da face, tentando claramente disfarçar sua imagem, pedia ao cambono que, por favor, atendessem-na. Foi levada até a frente do Conga, onde vovó Catarina ainda estava incorporada em seu aparelho, esperando-a.

- Nega véia saúda zi fia.

- Estou muito envergonhada. Na verdade, tenho sonhado muito que estou aqui à sua frente e agora vejo que é tudo igual, como no sonho. Estou apavorada, pois andam acontecendo coisas estranhas comigo. Ontem mesmo o padre a quem tenho auxiliado todos estes anos pediu para que me afastasse da igreja, pois acha que estou endemoniada. Por várias vezes, quando as pessoas me procuram para aconselhá-las, eu saio do ar, e dizem que, além de me abaixar como uma velha arqueada, falo diferente, assim como a senhora está falando agora. Dizem que ensino remédios com ervas, banhos de descarrego, que benzo. Quando volto do transe, sinto-me muito bem; nem as dores do reumatismo sinto mais por vários dias. Depois que isso começou a acontecer, nunca mais tive os desmaios. Mas estou triste, pois minha vida é a igreja, e agora fui afastada.

- Eh eh… zi fia. Salve a mana que tá grudada em seu costado!

Por mais de hora, enquanto a corrente, concentrada, cantava baixinho pontos aos Orixás, vovó Catarina esclareceu àquele coração sedento de sabedoria, de entendimento, as coisas do espírito. Falou-lhe sobre sua mediunidade reprimida, sobre caridade, sobre Deus como Pai de todos, sobre Cristo e o que era ser cristão. Daquele dia em diante, mesmo sem os atabaques naquele terreiro, mais uma voz se juntava quando a corrente louvava os Orixás, dando um tom especial à caridade.

“Saravá pra vovó Catarina,
que é dona da gira do meu terreiro.

Saravá pra vovó Catarina e
todas as almas do cativeiro!”

Título: Causos de Umbanda – A psicologia dos pretos velhos
Autor: Leny W. Saviscki
Coautor: Vovó Benta

 

Entre em nossa Comunidade Espiritismo x Umbanda (clique)!

 

 

Posted in UMBANDA | Etiquetado: , , , , | Comentários desativados

 
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 38.574 outros seguidores