POVO DE ARUANDA

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Posts de fevereiro \28\UTC 2011

Reflexões sobre o carnaval, considerações de um Umbandista

Publicado por Administrador em fevereiro 28, 2011

Conheço pessoas que durante todo o ano deixam de fazer o que querem, subjugam-se a modos de vida, o que para ele é mais prático, porque aparentemente não há tantos embates. Não sentem necessidade de situarem-se com os pés no chão em suas ações cotidianas, pois acreditam que atingiram zonas confortáveis de segurança na rotina das suas vidas, na interdependência do círculo familiar, na eterna tolerância ao tédio no trabalho e aparentes relações amistosas com todos ao redor.

São pessoas que vivem como que na superfície da verdadeira vida. Aqueles que passam a vida a ver as sombras na parede, se formos lembrar do mito da caverna de Platão, revivida em Fernão Capelo Gaivota e na lenda oriental dos peixinhos do tanque.

Só que chega o carnaval, parece que na mente e no íntimo dessas pessoas, ocorre uma espécie de desbloqueio, e todas as barreiras morais e sociais se neutralizam, e elas entram em clima de “vale tudo”, como se fosse uma compensação pelo “comportamento exemplar de todo o resto do ano”. Alegam que “merecem” ser felizes por um dia e caem na folia.

Muitos divertem-se sadia e equilibradamente, apenas usando o momento para abolir as preocupações e afastarem-se das obrigações e responsabilidades diárias nem que seja por uns poucos dias.

Outros, porém, cometem todo o tipo de desvarios, comprometendo-se e às vezes levando outros de roldão em atos de imprudência, selvageria, colocando em risco sua integridade, às vezes a vida.

Tentar resolver ou esquecer os problemas pessoais durante os dias de folia carnavalesca, pode ser o pior caminho que alguém possa tomar.

Pois o carnaval, que parece na sua manifestação física como explosões de cores e alegria, traz a beleza descompromissada, mas ocorre que não há equilíbrio nas forças emocionais e passionais que estão libertas, ricocheteando no ambiente uma energia sem ajustes e sem limites, onde no meio das quais estão à espreita outros com as piores intenções, que absorvem avidamente essas energias, vampirizando intensamente os foliões invigilantes.

São portais que se abrem em regiões profundas e obscuras, deixando passar entidades vingativas, perversas, artífices na arte do ilusionismo, mostrando para os incautos que se “divertem”, situações de êxtase, realizações, todo tipo de engodo auxiliado pelas drogas, pelo álcool, pela sexualidade exacerbada, de modo a aprisionarem facilmente quantos estejam a descoberto de sua proteção, inseguros de seus projetos de vida, desequilibrados emocionalmente, esvaziados de verdadeiros sentimentos, minados por angústias e rancores mal resolvidos.

Os blocos, a fuzarcas, escondem verdadeiros campos de batalha nos paralelos astrais.

Não existe acaso, e a Ordem e a Lei nunca se cumpre injustamente. Não há que se ter medo do carnaval e o posterior período da Quaresma. Em diferentes pontos do planeta, desde o início dos tempos, há periodicamente estes bolsões, estes “gaps” energéticos a sugarem aqueles que precisam ser acordados e sacudidos diante as Verdades, ou o resgate daqueles que abusaram da fé de outros, negociaram com o destino que não lhes pertencia, que esqueceram valores como respeito, amizade, cortesia.

Este texto não quer mostrar conceitos de falso moralismo, de ostentação de um comportamento sisudo e sombrio. Pelo contrário, o umbandista, quando alcança o auto-conhecimento, tem um constante sorriso nos lábios, seu coração nunca está vazio, suas mãos, sempre laboriosas. Não há espaço para tédio ou rotina na sua vida, porque ele aprendeu a fazer acontecer, aprendeu a guiar seus dias e suas horas de maneira proveitosa, sem perder tempo em contendas menores, pelejas inúteis. Não sente necessidade de compensar nada, pois já se encontra bem e em equilíbrio. Não sente necessidade de “sair do sério”, “compensar o resto do ano”, “cair na gandaia”… Até porque sabe que por trás do ambiente glamuroso há um outro à, ávido e perigoso.

E que uns poucos dias de alienação compulsória não mudarão o cenário de um mundo que está passando por profundas modificações socioeconômicas, geológicas, ideológicas, num panorama preocupante com as freqüentes catástrofes ambientais, com a miséria descortinada, como temos visto em várias regiões da África e do Haiti, e lugares com profundos estremecimentos políticos com as Coréias e eternas desavenças, e as preocupantes áreas de conflito no Oriente Médio, agora estando na berlinda o Egito, a Líbia e Barhein. Que tristeza ver as pirâmides milenares dos faraós ameaçadas, e o berço do mundo ainda em caos…

O Carnaval para o religioso, não só o umbandista, deveria ser um momento de reflexão. Repensar os verdadeiros valores, observar que nada é tão precioso como os relacionamentos puros e sinceros, que se fortalecem ao passar dos anos e se renovam em meio a crises.

Pode perfeitamente ser um momento de descanso e descontração do físico, sair um pouco da rotina pesada de trabalho, estudo, numa oportunidade de maior interação com a família e amigos, na meditação saudável sobre planos, resolução de metas, construção de sonhos. Na vibração positiva pela Humanidade e sua evolução, na reflexão profunda sobre seu caminho, suas certezas, suas metas. No pensamento de Paz e Harmonia Universal, obtenção de uma reserva de Serenidade, clareza de mente, Esperança, Fé.

Como umbandista, acredito que nesta época do ano, abrem-se determinados portais.

Alguns de nós acreditam que os Orixás afastam-se do planeta, e coincidentemente os ocultistas afirmam que nesta época do ano até final de julho, o planeta fica sujeito a vibrações negativas, e depois percorre o lado oposto até o lado extremo positivo, no evento do Natal. Na Umbanda coincide com o dia 26 de julho, dia de Nanã, poderosa

Orixá que vai direcionando a roda da vida em mais um ciclo.

Na época de carnaval, quem está alcançável em Terra são os Exus de Lei, os Exus guardiões, que patrulham a crosta brasileira, como o fazem em outras ocasiões em vários momentos no mundo. O pensamento excessivamente libertino que permeia a ambiência prejudica o equilíbrio, atrai espíritos vingativos, malévolos, vampirescos, onde não convém fazer oferendas. Quem as faz, ou é incauto ou não tem boa inteção.

Os dirigentes de todos os terreiros orientam que se os umbandistas forem participar das festividades carnavalescas, não coloquem fantasias e máscaras. Apresentem-se exatamente como são, sem engodos e sem ilusões, respeitando-se e respeitando os outros, sem abusos de bebidas, sem ingerir drogas, e se resguardem, pois estarão conscientes que os locais estão densos, pesados de todo tipo de pensamento. Na maioria dos Terreiros é feito um ritual na quarta ou quinta-feira. Em algumas Casas até mesmo fazem oferendas, mas na maioria é apenas uma gira entre os filhos da Casa onde acendem uma vela de sete dias para permanecer “Exu aceso” nesta época de folia, em outros faz antecipadamente, mas o Pai ou Mãe no Santo após o término da vela acende outra, apenas para resguardar os seus filhos. Estas giras na maioria das vezes é fechada, ou seja, não aberta ao publico, apenas para os filhos da Casa.

Para finalizar, vamos refletir que ao citarmos influências positivas e negativas, não devemos considerá-las exatos sinônimos de Bem e Mal. Devemos ter a compreensão que todos estaremos sempre passando do pólo negativo ao positivo, faz parte da roda da vida, e isso os taoístas sempre compreenderam bem, um pólo se interpondo ao outro, quando se esgota o pólo negativo, já está inserido o pólo positivo. Pelo mesmo motivo aprendemos que não existe escuridão absoluta, e que quando algo chega até o fim de sua capacidade, se inicia um novo ciclo em outra direção. Todos passamos por isso, e ao passarmos pelo pólo negativo, se estivermos cheios de pensamentos desarmonizados, estaremos mais suscetíveis a suas conseqüências. Se ao passarmos pelo pólo positivo, não tivermos nos dedicado à auto-iluminação, nada veremos, nada aproveitaremos, será como se tudo fosse igual pois não estaremos em condição de vibrar com aqueles que estão nesta faixa. È bem diferente de ser bom ou mau. Todos passam pelo positivo e negativo, e assim, seria grande preconceito dizer que se está sempre do lado positivo e da Luz. Estou tentando expressar, que não é o fato do mundo estar circulando do lado positivo ou negativo, mas o fato de quem nós realmente somos quando passamos por estas vibrações. Logo, o que a vida traz para cada um, não depende do mundo exterior ou de outras pessoas, mas o que cada um está fazendo dela, em cada minuto que estivermos encarnados.

Que cada dia traga a verdadeira Felicidade e Bem Estar a cada um, com a proteção e vibração das Forças Maiores.

 

 

Sarava!

 

Estejam todos em paz!

 

Alex de Oxossi
Rio Bonito – RJ

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DEMOLIÇÃO DE TERREIRO – PREFEITURA DO RJ

Publicado por Administrador em fevereiro 26, 2011

Eliane Maria

TERREIRO DE CANDOMBLÉ ESTÁ SENDO DERRUBADO NO RECREIO

Agentes da prefeitura estão neste momento em frente ao terreiro de candomblé Ilê Asé T’Ogun T’ Yemonjá, na Vila Harmonia, Recreio dos Bandeirantes. De acordo com um membro da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), que está no local, o muro foi derrubado. Dentro do templo religioso, há uma pessoa recolhida para fazer cabeça. Um ônibus da Guarda Municipal e um trator estão parados diante do terreno.

A prefeitura alega que a Vila deve sair do local para a construção da TransOeste, mas a Defensoria Pública questiona a alegação, já que não haveria previsão para que parte do trajeto passe por ali.

Em dezembro, Sérgio Luiz Romano Campos, o Sérgio D’Ogun, responsável pela casa, denunciou o tratamento desigual com os candomblecistas que tiveram seus templos classificados como comércio sem direito a indenização. Na época, a Secretaria municipal de Habitação foi procurada e informou que a situação das casas religiosas da Vila Harmonia seria reavaliada.

CCIR PEDE SUSPENSÃO DA DEMOLIÇÃO DE TEMPLO DE CANDOMBLÉ NO RECREIO

Religião e Fé

A Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR) pediu, no início da madrugada desta sexta-feira , por meio de sua coordenadoria jurídica, a suspensão da retirada de pessoas e da demolição do templo religioso Ilê Axé de Ogum e Iemanjá, na Vila Harmonia, Recreio dos Bandeirantes, devido a obras da Transoeste. O advogado Mário Fonseca acredita que a Prefeitura do Rio não pode dar continuidade à demolição por ainda caber recurso. Segundo o representante da CCIR, o desembargador deu decisão monocrática sobre o caso e, sendo assim, ainda cabe agravo interno – quando outros dois desembargadores devem tomar conhecimento do recurso.

- A intenção é pedir que nada seja demolido enquanto o agravo não terminar – explica Mário Fonseca.

A Procuradoria pegou o processo inicial em 23 de fevereiro de 2011. Nele, há decisão favorável ao religioso. A Defensoria Pública perdeu o recurso. Ontem, funcionários da Subprefeitura da Barra da Tijuca foram ao local e deram início à desapropriação e derrubada do terreiro.

Templo está com fiel em resguardo

Segundo o sacerdote Sérgio D´Ogum, há uma fiel no terreiro de preceito. Ela está acolhida para orixá e, por isso, também deve ser respeitada:

- Esta moça passa, neste momento, por uma das fases mais sagradas para os seguidores de nossa religião. Não sei mais o que fazer para convencer que meu centro também é um templo religioso, assim como as igrejas aqui da comunidade que foram indenizadas. Minha esperança é que a comissão consiga interceder perante a Justiça.

Em 19 de dezembro de 2010, católicos, umbandistas, evangélicos e membros de vários segmentos religiosos fizeram um ato na Vila Harmonia contra a ação da Prefeitura do Rio. Para o interlocutor da CCIR, o babalaô Ivanir dos Santos, a questão é muito grave por tratar de direito de cidadãos e interferir na questão da fé.

- É preciso levar em consideração o fato de que a fé mexe com os corpos e com as almas de todos. A preocupação da CCIR é justamente fazer com que haja igualdade entre as religiões. Com igrejas, houve acordos. Com centros de religiões de matrizes africanas, o tratamento, segundo o que os sacerdotes dizem, tem sido diferente. O que não pode acontecer. Sendo assim, queremos chamar atenção do prefeito para que todos sejam tratados da mesma forma.

CCIR FAZ ACORDO COM SUBPREFEITURA DA BARRA PARA EVITAR DERRUBADA DE TEMPLO NO RECREIO

Religião e Fé

A Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR) emitiu há pouco uma nota sobre o impasse envolvendo a prefeitura e um terreiro de candomblé na Vila Harmonia, no Recreio. De acordo com a comissão, a demolição foi adiada até que termine o resguardo de uma fiel que se encontra no templo religioso.

Confira a nota:

“A Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR) recebeu, na tarde de hoje (25), a notícia de que o Templo de Ogum e Iemanjá, na Vila Harmonia, não será derrubado pela Subprefeitura da Barra da Tijuca até que a fiel que se encontra em preceito do Candomblé termine o ritual. O aviso foi feito pelo subprefeito da Barra, Thiago Muhamed, por telefone, à Coordenação de Comunicação da entidade.

A CCIR sugeriu ao subprefeito que se reúna, no próximo dia 3 de março, com o interlocutor da comissão, babalawo Ivanir dos Santos, e com o religioso Sérgio D´Ogum, para esclarecer dúvidas de que haja tratamento desigual no que se refere a indenizações dos templos de diferentes religiões.

Muhamed explicou que, como é feito nesses casos de demolições, as pessoas recebem o dinheiro correspondente ao lugar que moram.

“Um pastor de outra comunidade próxima recebeu indenização porque morava em cima da igreja onde pregava. A mesma coisa acontecerá com o senhor Sérgio. No entanto, quero deixar claro que a Prefeitura do Rio não discrimina qualquer credo e vai sempre respeitar a crença alheia”, afirmou.

No final da tarde, Muhamed recebeu o sacerdote Sérgio D´Ogum e um grupo de pessoas solidárias ao sacerdote.”

 

FONTE:  Jornal Extra

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Você assistiu o SuperPop (24/02)? Não? Assista no Portal Povo de Aruanda…

Publicado por Administrador em fevereiro 26, 2011

Bom dia Irmãos,

para quem não assistiu o programa SuperPop na RedeTV (24/02/2011) esta é uma oportunidade para assistir no Portal Povo de Aruanda.

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Defendido por neopentecostais, ensino religioso é descartado pela Prefeitura do Rio.

Publicado por Administrador em fevereiro 24, 2011

Irmáos,

No Diario Oficial desta 5a feira, dia 24 de fevereiro de 2011, foi publicada a decisão do Conselho Municipal de Educação da Cidade do Rio de Janeiro, eliminando completamente a possibilidade de ser implantado ensino religioso nas escolas municipais do Rio de Janeiro.

Foi fruto de um longo processo de discussão e amadurecimento.

A implantação do ensino religioso nas escolas sempre foi uma das bandeiras dos neopentecostais.

As ponderações da relatora foram fulminantes. Destaco os seguintes trechos:

“Se, como prescreve a lei, o ensino religioso é de matrícula facultativa ao aluno, como pode fazer parte dos horários normais das escolas públicas de Ensino Fundamental? Farão parte das 800 horas de carga horária mínima estipulada? Como computar a carga horária dos alunos que optarem por não freqüentá-lo? “

“Como pensar o estabelecimento de conteúdos que respeitem a diversidade Cultural e religiosa, ouvindo entidades civis constituídas pelas diferentes denominações religiosas, sem que isso represente qualquer forma de proselitismo?”

“A consulta a essas instituições religiosas poderia ser interpretada como uma forma de ingerência em matéria que cabe ao Estado? Quais critérios seguir para o oferecimento de aulas/turmas que levem em consideração a diversidade de credos (ou ausência deles) dos alunos?”

“Como equacionar a representatividade de credos religiosos e os critérios oficiais de organização de turmas pautados na relação adulto-criança/jovem?”

“Quantos e com que formação deveriam ser os professores credenciados para esse cargo?Quais as implicações jurídicas, administrativas, financeiras e estruturais seriam decorrentes dessa medida?”

“O Conselho Municipal do Rio de Janeiro, reafirmando o caráter laico da escola pública, compreende que o ensino religioso não se constitui em uma área de conhecimento específica que deva ser tratada nos moldes disciplinares”.

“O Conselho compreende que ele integra o que as Diretrizes Curriculares Nacionais nomeiam como Princípios (éticos, estéticos e políticos), devendo, portanto, ser tratado, na condição de Princípio, como um balizador dos Projetos Políticos Pedagógicos, sem hierarquização face a outros valores que circulam na cultura”.

Abaixo, a íntegra da decisão.

ÁTILA NUNES NETO

 

DIÁRIO OFICIAL de 24 de fevereiro de 2011

CONSELHO MUNICIPAL DE EDUCAÇÃO

ATO DO CONSELHO

CÂMARA DE POLÍTICAS SOCIAIS

INTEGRADAS À EDUCAÇÃO

PARECER N.º04/2011

Opina sobre a aplicabilidade do disposto no art.33 da Lei nº 9.394, de 20/12/1996

(Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) tratando do Ensino Religioso.

HISTÓRICO

Em 14 de dezembro de 2010, o Conselho Nacional de Educação publicou a Resolução n° 7, que fixa Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental de 9 (nove) anos.

A leitura atenta da referida Resolução esteve em pauta neste Conselho, em sessões realizadas nos meses de janeiro e fevereiro do corrente ano, propiciando um substantivo debate. Mereceram destaque o Artigo 15 e seu 6° parágrafo, que tratam do Ensino Religioso na organização dos Componentes Curriculares Obrigatórios do Ensino Fundamental, resultando neste parecer cujo objetivo é apresentar o posicionamento do Conselho Municipal do Rio de Janeiro face ao tema em tela.

Considerando a diversidade que constituiu a sociedade brasileira e a garantia constitucional do direito dos cidadãos em exercer livre e democraticamente seus pensamentos e crenças, todo processo que envolve o campo religioso é de grande complexidade e requer cuidado em sua abordagem, sobretudo quando se refere à normatização do Ensino Religioso pelos Sistemas de Ensino.

Vários fatores se colocam em conflito e contribuem para essa complexidade: a relação entre Estado e Religião; a relação hierárquica entre instituições religiosas hegemônicas e outras de menor visibilidade; o respeito à diversidade e às diferenças religiosas, bem como o direito ao ateísmo ou agnosticismo; o papel da escola e da família na formação das crianças e jovens; o sentido da escola pública. A construção e constante reformulação de documentos legais para este campo são exemplares da complexidade e do reduzido consenso que a temática alcança. Vejamos:

Na Constituição Brasileira, datada de 1988, encontramos:

Art. 210. Serão fixados conteúdos mínimos para o ensino fundamental, de maneira a assegurar formação básica comum e respeito aos valores culturais e artísticos, nacionais e regionais.

§ 1º O ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental. Em 20 de dezembro de 1996, em conformidade com a Constituição promulgada em

1988, foi editada a Lei 9.394, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, sendo o ensino religioso assim tratado :

Art. 33. O ensino religioso, de matrícula facultativa, constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, sendo oferecido, sem ônus para os cofres públicos, de acordo com as preferências manifestadas pelos alunos ou por seus responsáveis, em caráter:

I – confessional, de acordo com a opção religiosa do aluno ou do seu responsável, ministrado por professores ou orientadores religiosos preparados e credenciados pelas respectivas igrejas ou entidades religiosas; ou

II – interconfessional, resultante de acordo entre as diversas entidades religiosas, que se responsabilizarão pela elaboração do respectivo programa.

Esse artigo da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, sete meses depois de sua publicação, sofreu alteração através da Lei 9.475, de 22 de julho de 1997, passando a vigorar com a seguinte redação:

Art. 33. O ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da formação básica do cidadão e constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo.

§ 1º Os sistemas de ensino regulamentarão os procedimentos para a definição dos conteúdos do ensino religioso e estabelecerão as normas para a habilitação e admissão dos professores.

§ 2º Os sistemas de ensino ouvirão entidade civil, constituída pelas diferentes denominações religiosas, para a definição dos conteúdos do ensino religioso.”

Seguindo essa redação, o artigo 15 da Resolução n° 7 do Conselho Nacional de Educação, que “fixa Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental de 9 (nove) anos”, apresenta o ensino religioso entre os componentes curriculares obrigatórios do Ensino Fundamental.

Art. 15 “Os componentes curriculares obrigatórios do Ensino Fundamental serão assim organizados em relação às áreas de conhecimento:

I – Linguagens:

a) Língua Portuguesa;

b) Língua Materna, para populações indígenas;

c) Língua Estrangeira moderna;

d) Arte; e

e) Educação Física;

II – Matemática;

III – Ciências da Natureza;

IV – Ciências Humanas:

a) História;

b) Geografia;

V – Ensino Religioso.”

§ 6º O Ensino Religioso, de matrícula facultativa ao aluno, é parte integrante da formação básica do cidadão e constitui componente curricular dos horários normais das escolas públicas de Ensino Fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural e religiosa do Brasil e vedadas quaisquer formas de proselitismo, conforme o art. 33 da Lei nº 9.394/96.

Entendendo como controversa a matéria em questão, a Procuradoria Geral da República, no dia 2 de agosto de 2010, propôs ao Supremo Tribunal Federal uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 4439), solicitando interpretação constitucional do artigo 33 da Lei de Diretrizes de Bases, no sentido de tornar clara a incompatibilidade entre a laicidade da escola pública e o ensino de caráter confessional. A matéria aguarda decisão final do Superior Tribunal de Justiça, estando em tramitação no referido órgão.

VOTO DA RELATORA

O amplo debate que cerca a normatização do ensino religioso afeta este Conselho sob duas perspectivas. Uma, de natureza político-filosófica, que diz respeito a tornar pública para a sociedade a compreensão que este Conselho tem do tema em tela. Outra, de natureza pragmática, refere-se às deliberações necessárias para que as redes de ensino organizem seus currículos e seus quadros docentes.

Muitos pontos polêmicos e conflituosos ainda se fazem presentes, sem que tenham sido tocados pelas alterações dos textos oficiais. Alguns já foram tratados por este Conselho no Parecer 23, de 31 de julho de 2001. Outros permanecem em aberto, reafirmando o caráter polêmico da temática.

Se, como prescreve a lei, o ensino religioso é de matrícula facultativa ao aluno, como pode fazer parte dos horários normais das escolas públicas de Ensino Fundamental? Farão parte das 800 horas de carga horária mínima estipulada? Como computar a carga horária dos alunos que optarem por não freqüentá-lo?

Estas questões associam-se a outras: Como pensar o estabelecimento de conteúdos que respeitem a diversidade cultural e religiosa, ouvindo entidades civis constituídas pelas diferentes denominações religiosas, sem que isso represente qualquer forma de proselitismo? A consulta a essas instituições religiosas poderia ser interpretada como uma forma de ingerência em matéria que cabe ao Estado? Quais critérios seguir para o oferecimento de aulas/turmas que levem em consideração a diversidade de credos (ou ausência deles) dos alunos?

Como equacionar a representatividade de credos religiosos e os critérios oficiais de organização de turmas pautados na relação adulto-criança/jovem? Quantos e com que formação deveriam ser os professores credenciados para esse cargo?

Quais as implicações jurídicas, administrativas, financeiras e estruturais seriam decorrentes dessa medida?

Considerando os muitos questionamentos que permanecem em aberto e as conseqüências administrativas de uma adequação precipitada numa rede de tamanha extensão, é recomendável que nenhuma decisão seja tomada até que a ação de inconstitucionalidade apresentada pela Procuradoria Geral da República seja votada.

O Conselho Municipal do Rio de Janeiro, reafirmando o caráter laico da escola pública, compreende que o ensino religioso não se constitui em uma área de conhecimento específica que deva ser tratada nos moldes disciplinares.

O Conselho compreende que ele integra o que as Diretrizes Curriculares Nacionais nomeiam como Princípios (éticos, estéticos e políticos), devendo, portanto, ser tratado, na condição de Princípio, como um balizador dos Projetos Políticos Pedagógicos, sem hierarquização face a outros valores que circulam na cultura.

DECISÃO DA CÂMARA

Rita Marisa Ribes Pereira

Iza Locatelli

Sérgio Sodré Peçanha

Marcelo Pereira

Maria de Nazareth M. de B. Vasconcellos

Luiz Otávio Neves Mattos

Rio de Janeiro, 22 de fevereiro de 2011.

DECISÃO DO PLENÁRIO

O presente Parecer foi aprovado por unanimidade.

Rio de Janeiro, 22 de fevereiro de 2011.

Este texto foi enviado pelo irmão Átila Nunes Neto via e-mail.

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Diferença entre Karma e Dharma

Publicado por Administrador em fevereiro 24, 2011

Lázaro Freire

KARMA é uma palavra em sânscrito que significa, simplesmente, AÇÃO. Para um hindu, a reação já faz parte da própria ação, as coisas são uma só. Não há, portanto, contexto de pecado, punição ou recompensa, como um ocidental traduz. A causa e sua consequência são o mesmo ato, o karma. Se você semeia vento, colhe tempestade, não porque Deus castiga, não por expiação e provas, não por moralismo divino, mas apenas porque não se colhe morangos dos espinheiros. Se fiz o “mal”, colho o “mal”, não por haver códigos divinos de certo e errado, mas por simples causa e consequência. E tudo isso é KARMA. Mas se recebo presentes bacanas no meu aniversário, por ter sido uma pessoa bacana também, isso também é KARMA, no sentido hindu. Se alguém busca a Deus através do serviço filantrópico desinteressado, se sua espiritualidade e “união” com o divino (yoga, em sânscrito) se faz através mais de AÇÕES do que de conhecimento ou devoção, isto é chamado de KARMA YOGA, ou seja união através das AÇÕES (karma). Note que a maneira com que o senso-comum ocidental se apropria da palavra é completamente diferente – e equivocado.

Já o DHARMA tem dois sentidos principais, no hinduismo e no budismo. Dharma pode ser sua missão no mundo, o papel que ocupa, a proéxis da conscienciologia, o “sonho de morte” de Winnicott, o seu papel sócio-existencial, a sua possibilidade de auto-realização, o que seu inconsciente deve cumprir para se individuar. Para cumprir seu dharma, é preciso karma (o que não parece nem um pouco com o uso equivocado da palavra).

Não precisa ser algo estereotipadamente espiritual; para muitos, cumprir seu dharma é ser uma boa mãe e avó. Para outros, ser um bom policial, mesmo se cético, evangélico ou ateu! Meu dharma tem sido divulgar a espiritualidade e discernimento, levar senso crítico às pessoas, eu ficaria sem ar se não fizesse isso. Meu dharma hoje é dar aulas de filosofia (inclusive em escolas do estado, que não pagam nada) e atender pessoas na clínica, não faço isso por “profissão” ou dinheiro, ao contrário, mudei minha vida para poder fazer isso, porque faz sentido para mim, e me DÁ sentido também. Às vezes, após fazer os olhos de adolescentes pobres brilharem por perceberem que podem pensar e questionar, ou após uma sessão de psicanálise em que REALMENTE fiz diferença na vida de uma pessoa, costumo pensar, em silêncio, sem reconhecimento ou publicidade alguma por isso (já tive mais em outros dharmas), que se eu tivesse nascido naquele dia pela manhã e morrido no final da noite, AINDA ASSIM minha passagem pelo planeta teria feito sentido – e mudança – por ter levado evolução e transformação. O mundo não será mais o mesmo após aquele meu dia. Isso é cumprir o dharma. O que o Donald Winnicott chama de “sonhar o sonho que nos permite morrer”.

O conceito de dharma no hinduismo nos remete a Arjuna, o arqueiro do Baghavad Gitá, que interpela Krishna com suas dúvidas existenciais, uma vez que para cumprir seu papel de guerreiro na sociedade precisará matar pessoas que antes eram amigas, em uma guerra que não é necessariamente sua. Como conciliar a espiritualidade com o assassinato? Naquela bela metáfora, Krishna lhe explica sobre o cumprimento de seu dharma, o de ser guerreiro (a sociedade hindu era dividida em castas rígidas), e de como qualquer trabalhador, poder oferecer o fruto de seu trabalho a Deus. Nenhuma flecha mataria o espírito imortal daquelas pessoas, e as mortes não viriam da maldade de Arjuna (o que lhe geraria o karma disso, ação e reação). Por outro lado, Arjuna tinha um DHARMA nessa vida, por mais estranho que pareça: o de ser guerreiro. Então que fosse um bom guerreiro, executasse o seu papel na sociedade, oferecendo o fruto de seu trabalho para Deus. Se isso soa estranho para os valores ocidentais (um avatar divino aconselhando um discípulo a matar as pessoas como sendo a coisa mais espiritual a fazer), ilustra de maneira intensa a necessidade de se cumprir o dharma, seja qual for. A situação extrema é proposital, para dizer que, por mais difícil que pareça, não podemos / devemos nos furtar a cumprir o nosso dharma – e que o façamos bem, oferecendo o fruto desse trabalho para o criador. Belíssimo.

Já em alguns contextos budistas, a palavra DHARMA é usada como sinônimo de uma benção do Buda. Fala-se mais em “receber” o dharma (benção) do que em “cumprir” o dharma (missão de vida). Embora seja uma apropriação linguística, uma evolução e extensão metafórica da palavra em outro contexto, como ocorre em qualquer idioma, AINDA ASSIM é coerente. Ora, como alguém poderia receber o dharma, a benção, em um contexto expiritual? Simples, cumprindo sua missão de vida (dharma), e executando boas ações (karma). No fundo, os três conceitos estão completamente interligados, embora tenham significados diferentes. Não há dharma sem karma, e a benção ou sintonia que encontramos é produto direto de nossos pensamentos, sentimentos, energias e ações.

Lázaro Freire

Fonte: Voadores

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Mironga de Umbanda para problemas afetivos

Publicado por Administrador em fevereiro 24, 2011


Por Fernando Sepe

Mironga é como chamamos o feitiço de preto-velho, a mandinga de negro em favor aos filhos que o procuram. Aqui vão algumas mirongas que essa nêga véia tem a ensinar para resolver as dificuldades do coração. Leia tudo com muita atenção e principalmente, aplique isso no seu dia-dia. Grande é a força dessas pequenas dicas…

1 – Aprenda a viver sozinho. Caso você não consiga nem viver consigo mesmo, como poderá levar felicidade e alegria para outra pessoa? Primeiro relacione-se com seu eu interior. Depois busque alguém.

2 – Assuma a responsabilidade pelo seu relacionamento. Não é magia, inveja, ciúmes de terceiros, etc, que irá separar aquilo que o amor uniu.

3 – É claro que também nenhuma simpatia, reza ou trabalho irá unir ou “amarrar” aquilo que a falta de carinho desuniu.

4 – Simplificando: quem procura as coisas ocultas para resolver pro­blemas sentimen­tais é imaturo. Ruim do juízo e doente do cora­ção.

5 – Desapegue-se! Ser humano é um bicho apegado. O único pro­ble­ma: amor é um senti­men­to livre. Um eterno querer bem. Um carinho incondicional. Quase um sentimento de devoção. Se você “gosta” tanto de alguém, que prefere ele “morto” do que feliz com outra pessoa, escute: Isso não é amor! Simples ilusão disfarçada…

6 – Aprenda que ninguém irá te completar. Você já é completo! Mas quando um relacionamento é calcado no mais puro amor, muito do amado vive no amante, e muito do amante pra sempre viverá no amado. Quer milagre maior que esse?

7 – Melhor sozinho do que mal acompanhado! Sabedoria popular, mas o que têm de doutor e doutora que não consegue entender isso.

8 – Ponha o pé no chão e esqueça essa história de alma gêmea. Pare de enfeitar suas próprias desilusões com devaneios ditos espiritualistas. Encare a realidade de frente.

9 – A vida vai passando, com ele/a, ou sem ele/a. E a morte se aproximando…

10 – Por isso, vão viver a vida meus filhos! Quem sabe ela não está guardando um presente para vocês? Não existe mironga maior que essa…


Por Fernando Sepe / Vó Dita 11/02/2007

Enviado Por Alexandre Cumino em: 14/02/2011

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Maria na Umbanda: entre santos e orixás

Publicado por Administrador em fevereiro 13, 2011

 

Por Alexandre Cumino*

1. Introdução

Maria, mãe de Jesus, vai muito além do Catolicismo e do Cristianismo, vemos sua presença em grandes religiões como o Islã, onde ela assume o papel de mãe do profeta Jesus, no entanto é possível encontrar Maria nos cultos ou religiões sincréticas das Américas. O colonizador europeu trouxe o africano como escravo e ambos se instalaram nesta terra do índio. Logo as culturas do branco, do negro e do vermelho se encontraram de forma particularizada em diferentes regiões deste continente. E assim chegou Maria ao Brasil, onde foi acolhida também pela religiosidade popular, associada e comparada com divindades e entidades do mundo mítico afro-indígena. Neste contexto está, também, a Umbanda, nascida da miscigenação tão brasileira, no seu jeito de ser, fruto de mitos, ritos e símbolos os mais variados.

2. Objetivo

O objetivo deste estudo é ressaltar alguns pontos da presença de Maria na Umbanda. Verificamos um sincretismo dinâmico. “Maria Virgem” se identifica com Oxum e “Maria Mãe” se identifica com Yemanjá, em que a relação santo/orixá varia segundo diferentes pontos de vista. Para além de um altar essencialmente católico, podemos observar Maria em outros aspectos da liturgia, como a Festa de Yemanjá e a identificação dos templos com nomes de santos.

Hoje a Umbanda passa por uma mudança de paradigma, no que diz respeito a sua literatura, escrita de “umbandista para umbandista”, surge uma literatura psicografada de Umbanda e novas abordagens sobre a relação de Maria na Umbanda. Sendo uma Religião muito aberta e inclusiva acolhe diferentes e novas formas de entender a presença de Maria. Vamos aqui apenas esboçar alguns aspectos, conscientes da complexidade da Umbanda e dos diferentes ângulos que as Ciências da Religião nos oferecem para aprofundar a questão.

3. Maria na história da Umbanda

O primeiro templo de Umbanda de que se tem noticia traz o nome de “Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade”, quem nos conta a história de sua fundação é o Sacerdote de Umbanda, Ronaldo Linares, Presidente da Federação Umbandista do Grande ABC (FUGABC), criador do primeiro curso de formação de sacerdotes de Umbanda.[1]

Dia 15 de Novembro de 1908, Zélio Fernandino de Moraes, um jovem rapaz de 17 anos, incorporou o espírito de Frei Gabriel de Malagrida, queimado na inquisição.[2] O espírito do Frei revelou que, em uma vida posterior, nasceu como índio no Brasil, preferindo ser identificado, agora, como “Caboclo das Sete Encruzilhadas” e que vinha para trazer a Religião de Umbanda. Sua “igreja” se chamaria Nossa Senhora da Piedade, pois assim como Maria acolheu a Jesus, a Umbanda acolheria os filhos seus.
Zélio vinha de uma família de origem católica e no seio deste lar tiveram início as sessões mediúnicas de Umbanda, onde já havia um pequeno altar católico. Com o tempo, o espírito de um “preto velho”, escravo de origem africana, “Pai Antônio”, traria o conhecimento dos orixás africanos associados aos santos católicos. Nascia o sincretismo de Umbanda, Maria já estava presente e enraizada nos valores religiosos e espirituais dessa família.
No decorrer dos tempos surgiriam milhares e milhares de Templos de Umbanda, identificados como “tendas”, “centros”, “casa” ou “terreiros” de Umbanda, nos quais a exemplo da primeira “Tenda de Umbanda”, estariam presentes as “Marias”, identificando estes templos como: “Tenda Nossa Senhora da Conceição”, “Tenda Nossa Senhora da Guia”, “Nossa Senhora de Sant’Ana”, “Nossa Senhora dos Navegantes” e outras como “Estrela D’alva”, “Tenda Nossa Senhora Aparecida”, “Casa de Maria” etc.[3]

4. Maria no altar de Umbanda

Oxum representa o amor, a pureza, a beleza, inocência e concepção, enquanto Yemanjá representa a mãe universal, mãe dos orixás, aquela que mantém e gera a vida. Ambas se manifestam na água, Oxum nas cachoeiras e Yemanjá no mar.[4]

O sincretismo de Maria com os Orixás se faz notar principalmente no altar de Umbanda, que é um altar composto por imagens católicas. Encontraremos a imagem de Nossa Senhora da Conceição ou de Nossa Senhora Aparecida, fazendo sincretismo com Oxum. Yemanjá é o único orixá que tem uma imagem própria, umbandista, não católica, assim mesmo encontramos sincretismo com Nossa Senhora dos Navegantes ou Nossa Senhora das Graças.

5. Um olhar sociológico

Cândido Procópio Ferreira de Camargo, no final da década de 50, dedicou parte de seu tempo ao estudo das “Religiões Mediúnicas” e registrou no livro “Kardecismo e Umbanda: uma interpretação sociológica”, o resultado de sua pesquisa de campo, onde descreve um Terreiro de Umbanda:

“No ‘terreiro’ propriamente dito, barracão com cerca de 50m², há um altar, semelhante aos católicos . O ‘Orixá’ guia do ‘terreiro’ assume lugar de destaque , sob a figura do Santo Católico correspondente. São Jorge, Nossa Senhora, São Cosme e São Damião são os Santos mais comuns que integram o altar, além do Cristo abençoando, de braços abertos.”[5]

Procópio Ferreira dedica especial atenção ao sentimento de pertença daquele que busca as “religiões mediúnicas”, observando que boa parte dos freqüentadores consideram-se Católicos.

Embora já tenha decorrido meio século e a Umbanda venha mudando de perfil, na busca de identidade, ainda nos dias de hoje observamos este fato em menor grau. Para evitar preconceito da sociedade ou desinformação, alguns dos adeptos, da Umbanda, identificam-se de pertença espírita, não fazendo distinção entre sua prática e a criada por Allan Kardec.

Ao adentrar um terreiro de Umbanda pela primeira vez muitos o fazem com certo receio do desconhecido, mas se deparando com um altar católico sentem-se confortados e tranqüilos. Jesus de braços abertos e Maria a seu lado, junto com todos os outros santos, continuariam a guiar sua fé, agora ao lado da tão popular Yemanjá.

O sincretismo, neste caso, serve de amparo para que o desconhecido se apresente através de elementos já conhecidos. O Católico se sente à vontade para justificar sua pertença, assim como, fica clara a importância do altar para a recepção e a conversão do novo adepto.

6. Festa de Yemanjá

Na década de 50 foi criada uma imagem brasileira para Yemanjá, de pele branca, cabelos negros, vestida de azul, pairando sobre o mar, seu vestido se funde às ondas e derrama pérolas pelas mãos. Esta é uma imagem umbandista e embora todos aceitem Maria como Yemanjá e Oxum, quase não se usa uma imagem católica para Yemanjá, pois ela tem o privilégio de ter imagem própria.

Na Umbanda paulista desde 1969, realiza-se anualmente a Festa de Yemanjá, na Praia Grande, onde está a tradicional imagem de Yemanjá, em Cidade Ocian.[6]
Recentemente, o município de Mongaguá, recebeu uma grande imagem de Yemanjá doada pela FUGABC. A Rainha do Mar reina sozinha nestas duas praias do litoral sul paulista, sendo, dia 8 de Dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, a Festa de Yemanjá. Já as comemorações de Oxum ficaram para o dia de Nossa Senhora Aparecida e todo o resto do calendário umbandista é orientado por datas católicas, correspondentes aos santos e orixás.

7. Quatro olhares para o sincretismo afro-católico na Umbanda

O olhar para o sincretismo assume diferentes aspectos dentro da Umbanda, devido à liberdade de interpretações que existe dentro dela mesma. O umbandista tem diferentes formas de se relacionar com Maria, que resultam em olhares diferentes para o sincretismo. Coloco aqui quatro olhares distintos:

• O primeiro olhar é um “olhar católico”, de desinformação sobre a cultura afro. O recém convertido ou o adepto ao ser questionado por exemplo, de quem é o Orixá Oxum ou Yemanjá responde simplesmente que é Maria Mãe de Jesus. Não há um interesse pela cultura e a presença da divindade africana.

• O segundo olhar é um “olhar afro” de desinteresse pelo Santo Católico, a presença do mesmo é apenas figurativa para representar o Orixá, divindade que não possui uma imagem feita de gesso para ir ao altar, com exceção de Yemanjá. Assim Nossa Senhora da Conceição ou Nossa Senhora das Graças está no altar apenas como uma referência simbólica para se alcançar e louvar, quem realmente está lá, Orixá Oxum.

• O terceiro olhar é um “olhar de fusão” pelo qual Maria, Oxum e Yemanjá se fundem, não há mais uma e outra, Maria é Oxum e também Yemanjá. As lendas e os mitos se confundem e se apresentam nos cantos, neles vemos “Maria a mãe dos Orixás”, “Maria filha de Nanã Buroquê, a avó dos Orixás” ou “Yemanjá mãe de todos os santos”. Inclusive o conceito de santo e orixá se confundem. O adepto se expressa dizendo “meu santo de cabeça é Oxum”, para esclarecer que este Orixá é o “dono de sua cabeça”, seu regente ou padrinho.

• Há ainda um quarto olhar, que é o “olhar de convivência”. É um olhar que reconhece a afinidade entre os Santos e Orixás, Nossa Senhora da Conceição tem sincretismo com Oxum porque ambas tem as mesmas qualidades. Santo e orixá convivem juntos em harmonia, a qualidade e presença de um não diminui o outro. Existem clareza e esclarecimento sobre a origem e cultura que envolve santo e orixá. Oxum não é Maria, mas ambas têm as mesmas qualidades e convivem juntas e em harmonia. Sozinhas elas já ajudam, juntas ajudam muito mais.

8. Uma nova experiência de Maria na Umbanda

Já comentamos, linhas acima, que a Religião de Umbanda vem mudando de perfil, buscando sua identidade e, porque não, até mudando alguns paradigmas. Até alguns anos a literatura chamada de “psicografada” ou “escrita mediúnica”, pela qual os espíritos dão sua mensagem escrita, eram de característica do Espiritismo “Kardecista”. Nos últimos anos vem se observando uma literatura “psicografada de Umbanda”, ou seja, livros de Umbanda escritos de forma mediúnica.

Essa mudança de paradigma deve-se a um autor umbandista, Rubens Saraceni, que já publicou mais de 50 títulos nos últimos 13 anos, o que vem incentivando outros umbandistas a realizarem a mesma experiência.

O autor psicógrafo, médium e sacerdote de Umbanda, Rubens Saraceni, criou o primeiro curso livre de “Teologia de Umbanda”[7], para estudar de forma teórica e teológica as questões pertinentes à Umbanda, vista de dentro. Na “Teologia de Umbanda” se reconhece que Deus é Um com muitos nomes diferentes, como Alá, Zambi, Tupã, Olorum, El, Adonai, Jah, Javé, Aton, Brahman, Ahura Mazda[8] entre outros. Da mesma forma os diversos “Tronos de Deus”, “Divindades” ou Deuses se manifestam em várias culturas, “à moda” de cada uma delas. Assim o “Trono Feminino do Amor” ou “Divindade feminina do Amor” é conhecida como Oxum, Isis, Lakshimi, Afrodite, Vênus, Hebe, Kwan Yin, Freyija, Blodeuwedd, entre outros nomes, sendo a mesma, manifesta sob diferentes formas. Maria personifica este trono na cultura católica, portanto seu sincretismo com Oxum torna-se natural, legítimo e Justificado. Maria tem as qualidades do “Trono Feminino do Amor” e do “Trono Feminino da Geração”, como Yemanjá, Tétis, Hera, Parvati, Danu, Friga e outras. Todas as divindades convivem juntas e se expressam de muitas formas, lembrando a idéia das “Máscaras de Deus”.

9. Conclusão

Podemos ainda lembrar que Maria ocupa o posto que antes pertencia às “Deusas Pagãs”. O Catolicismo fez sincretismo de culturas e valores, durante sua expansão por territórios desconhecidos ao cristianismo. Podemos dizer que a Deusa também está no inconsciente coletivo que busca elementos conhecidos para concretizar-se em uma realidade palpável.

Por fim, podemos dizer que onde houver duas ou mais culturas haverá sempre o sincretismo, que marca o encontro entre elas. Maria faz parte de uma cultura que dominou todo o Ocidente e boa parte do Oriente. No mundo pós-moderno e globalizado, cada vez mais encontraremos sincretismos e associações a Maria.

Independente de como possa ser interpretada, concluímos que Maria também faz parte da Religião de Umbanda e se manifesta de formas diferentes dentro desta mesma Religião.

*Alexandre Cumino é presidente do Colégio de Umbanda Sagrada Pena Branca, conselheiro consultivo da Associação Umbandista e Espiritualista do Estado de São Paulo, Sacerdote de Umbanda, ministrante dos cursos livres de “Teologia de Umbanda Sagrada” e “Sacerdócio de Umbanda Sagrada”, editor do Jornal de Umbanda Sagrada e estudante de Ciências da Religião na Faculdade Claretiano.

Bibliografia:

BASTIDE, Roger. As Religiões Africanas no Brasil. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo e Editora Livraria Pioneira, 1971.

CAMARGO, Candido Procópio Ferreira de. Kardecismo e Umbanda: Uma Interpretação Sociológica. São Paulo: Editora Livraria Pioneira, 1961.

CUMINO, Alexandre. Deus, Deuses, Divindades e Anjos. São Paulo: Editora Madras, 2008.

LINARES, Ronaldo; TRINDADE, Diamantino e VENEZIANI, Wagner. Iniciação à Umbanda. São Paulo: Editora Madras, 2007.

SARACENI, Rubens. Orixás: Teogônia de Umbanda. São Paulo: Editora Madras, 2005.

SARACENI, Rubens e XAMAN, Mestre. Os Decanos: Os Fundadores, Mestres e Pioneiros da Umbanda. São Paulo: Editora Madras, 2003.

SARACENI, Rubens. Doutrina e Teologia de Umbanda. São Paulo: Editora Madras, 2008

_____________________

[1] LINARES, TRINDADE e VENEZIANI, 2007.

[2] É o próprio espírito de Gabriel de Malagrida, nesta mesma ocasião (LINARES, 2007. P.22), quem esclarece: “acusado de bruxaria, fui sacrificado na fogueira da Inquisição por haver previsto o terremoto que destruiu Lisboa, em 1775.”. No dia posterior na residência do jovem Zélio de Moraes, Gabriel de Malagrida, agora identificado como Caboclo das Sete Encruzilhadas, também teria previsto as duas guerras mundiais, as bombas atômicas de Hiroshima e Nagazaki e a grande degeneração da moral.

[3] O Próprio Zélio de Moraes fundou sete “Tendas de Umbanda” com nomes de santos católicos (LINARES, 2007. P.77).

[4] SARACENI, 2008

[5] CAMARGO, 1961, P.44

[6] SARACENI e XAMAN, 2003

[7] SARACENI, 2005

[8] CUMINO, 2008

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Entremédiuns 2011 – Os Tempos Do Fim

Publicado por Administrador em fevereiro 8, 2011



Entremédiuns 2011 – Os Tempos Do Fim

Um encontro espírita que discute temas atuais.

De 29/4 a 1°/5/2011 acontecerá em Belo Horizonte a 13ª edição do Entremédiuns.

O Entremédiuns é um dos maiores encontros espíritas de Minas Gerais, voltado para o público em geral. Ano após ano, desde 1998, tem como proposta a discussão de temas de relevância social sob a ótica espírita e espiritualista, proporcionando aos estudiosos e interessados uma oportunidade de reflexão sobre situações atuais.

Em outras edições, o Entremédiuns abordou temas como Novos paradigmas para o homem do terceiro milênio, Mediunidade, Em busca da paz e Sexo e espiritualidade. Sempre trazendo oradores conhecidos do movimento espírita e espiritualista, o encontro é aberto a todos os que se interessam pela ciência espiritual, sejam espíritas ou não.

O evento oferece também apresentações artísticas e feira de livros espíritas e espiritualistas, e é promovido pelas instituições parceiras Sociedade Espírita Everilda Batista, Casa dos Espíritos Editora e Universidade do Espírito de Minas Gerais.

www.entremediuns.com.br
info@entremediuns.com.br

 

PROGRAMAÇÃO

 

ENTREMÉDIUNS 2011

Os tempos do fim

Quando: 29 e 30/4 e 1/5/11

Onde: Rua das Canárias, 254, Pampulha, BH (sede campestre do Cruzeiro Esporte Clube)

 

Palestrantes:

Cláudio Zanata
Djalma Argollo
Irineu Gasparetto
José Medrado
Leonardo Möller
Robson Pinheiro

Entrada f ranca

QUINTA, 28/4 (Prévia)

Culto de Louvor | Robson Pinheiro

* O culto de louvor será realizado na Sociedade Espírita Everilda Batista
Rua Turquesa, 308, Bairro São Joaquim, Contagem, MG

 

SEXTA, 29/4

Palestra de abertura com José Medrado | O fim dos tempos

Participação restrita a inscritos previamente:
SÁB, 30/4

Palestras:
Expurgo planetário: hora da seleção dos espíritos | Cláudio Zanatta
Os filhos das estrelas | José Medrado
Característica dos espíritos degredados | Djalma Argollo
Lançamento de livro com Robson Pinheiro

 

DOM, 1/5

Palestras:
Mundo primitivo: um novo lar | Irineu Gasparetto
Higienização do umbral | Djalma Argollo
Músicas mediúnicas | Irineu Gasparetto
O fim dos tempos e os tempos do fim | Robson Pinheiro

 

Inscrições:

Até janeiro/11
Sócio* – R$65,00
Não sócio – R$75,00

 

Fevereiro e março/11
Sócio* – R$75,00
Não sócio – R$85,00

 

Abril/11
Sócio* – R$89,00
Não sócio – R$99,00

 

Minicursos: (opcionais)
1 | Profecias e previsões: comoções planetárias | Cláudio Zanatta
2 | A segunda vinda de Jesus: uma visão espírita | Djalma Argollo
3 | Reurbanizações extrafísicas: reconstruindo o umbral | Robson Pinheiro
4 | O papel dos guardiões na transmigração dos espíritos | Leonardo Möller

 

Até março/11
Sócio* – R$40,00
Não sócio – R$45,00

 

Abril/11
Sócio* – R$49,00
Não sócio – R$55,00
* Sócio contribuinte da Universidade do Espírito de Minas Gerais

 

Parcelamento nos cartões de crédito.
Grátis um livro da Casa dos Espíritos entregue no dia do evento.

 

Informações:
(31) 3357-2970 ou info@entremediuns.com.br
www.entremediuns.com.br

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A CADEIRA NO CANDOMBLÉ

Publicado por Administrador em fevereiro 6, 2011

Reginaldo Prandi

O trono ou a cadeira do pai ou da mãe-de-santo, que se confunde com a cadeira de seu orixá, é símbolo máximo de poder no Candomblé. Mais que isso, símbolo sagrado, diante do qual os filhos se prostram, em cumprimento e respeito. Um pai ou mãe-de-santo, quando é confirmado no cargo, isto é, entronizado, é sentado na cadeira, como os reis e rainhas.

A cadeira é o trono do terreiro, de onde a mãe ou o pai-de-santo governam com poderes absolutos.

Depois da cadeira da ialorixá, há as cadeiras dos oloiês, os ebômis (iniciado seniores) que têm cargo no terreiro. A confirmação de qualquer um desses cargos se faz numa cerimônia pública em que o novo oloiê é sentado em sua cadeira sob aplausos dos presentes. Assim, sentam-se os ogãs, as equédis e outras autoridades. É freqüente, no caso de cargos de não rodantes, o novo dono de cadeira ser conduzido a esta pelo orixá (incorporado em transe) a quem ele deve servir. Quando alguém vai ser confirmado num cargo, faz parte do enxoval uma cadeira, na qual terá o direito de sempre se sentar no barracão. Não é incomum ganhar a cadeira de presente de amigos e irmãos-de-santo. A cadeira de cada um é individual em tudo, de modo que nos terreiros pode coexistir uma profusão de cadeiras de tudo quanto é forma, material e acabamento. Como o espaço do barracão é essencial para as danças, muitos terreiros preferem recolher as cadeiras de cargo e manter apenas algumas delas para que os ebômis possam se sentar.

Somente a mãe-de-santo e seus auxiliares de grau sênior têm cadeira e podem se sentar. Os iaôs (juniores) e os abiãs (aspirantes) sentam-se no chão ou em esteiras. Sentar-se em cadeira é sinal de hierarquia, alta dignidade, obrigações cumpridas.

Os orixás de ebômis também se sentam em cadeiras, mas os orixás dos que estão nos pontos iniciais da carreira sacerdotal sentam-se em banquinhos. A cadeira marca a diferença de tempo de iniciação, de tempo de santo, tanto para os humanos quanto para os deuses.

Esse costume vem da África, onde somente os reis e membros da alta corte podiam se sentar em cadeiras e bancos. O assento do rei deveria ser mais alto do que os dos demais, como se observa até hoje no Candomblé. Mas seu uso é mais generalizado, podendo ser observado como prática que vai desde os povos mais antigos até instituições do mundo ocidental moderno.

O professor da antiga universidade dispunha de sua cadeira, sua cátedra, em latim, daí o nome de professor catedrático, o dono da cátedra. Da cátedra ele ditava sua sabedoria, daí se dizer que “falava de cátedra”. Até hoje se conserva esse costume com relação ao papa: diz-se que o papa fala de cátedra, da cátedra de São Pedro, e portanto o que ele diz e escreve é verdade que não pode ser contestada. Falar de cátedra significa falar com todo o poder do conhecimento, conhecimento conferido pelo estudo, pela antiguidade ou por força do mundo sobrenatural.

Como o papa, os bispos também se sentam em cadeiras. A catedral é a igreja em que se localiza a cadeira do bispo, o trono episcopal. É dali que o bispo dirige sua diocese.

Além de roupas especiais, como túnicas, capas, togas etc. etc., reis e rainhas, bispos, inclusive o papa (que é o bispo de Roma), pais e mães-de-santo usam muitos emblemas do seu poder: a cadeira ou trono em que se senta; coroas, mitras e adês com que cobrem a cabeça; cetros, báculos e opás que levam nas mãos. Objetos carregados de tradição, simbologia e força mágica. Até a reforma universitária, nas décadas de 1960 e 1970, os professores catedráticos também usavam na cabeça o capelo, símbolo dos doutores. Mas a cadeira ou trono é o símbolo máximo, pois marca o lugar de onde fala a autoridade, o ponto mais alto da assembléia, o centro do universo, o lugar do poder e da autoridade religiosa.

Com a morte desses donos do poder, abre-se a disputa pela cadeira, o cargo deve ser preenchido. Cada instituição tem seu modo próprio de fazer a sucessão. No Candomblé, diz-se que quem escolhe o novo chefe do terreiro é o orixá dono da casa, mas há diversas tradições, inclusive entre os terreiros mais antigos.

Com a cadeira principal vaga, abre-se quase sempre uma guerra sucessória. Na sucessão, é importante o critério de senioridade dos candidatos, seu grau iniciático, seu nível de conhecimento sacerdotal. Mas isso não é suficiente. O resultado da escolha depende da tradição sucessória da casa, do jogo político das facções, de pessoas e grupos que pleiteiam o trono da ialorixá, da situação jurídica do terreiro, da sucessão civil sobre o espólio material, isto é, a propriedade imobiliária do terreiro, da posição assumida por possíveis herdeiros legais, que podem fazer parte ou não do grupo de culto etc. Em geral, as casas não sobrevivem ao seu fundador, exceto em meia dúzia de casos, em que vários fatores confluíram no sentido de manter uma tradição publicamente atribuída e reconhecida pelo mundo fora do terreiro, como a mídia e a academia. Mas sempre haverá discordâncias, atritos, rupturas e provável formação de novas casas pelos dissidentes que se afastam. Tem sido assim desde que o Candomblé é Candomblé.

Dos velhos terreiros da Bahia, poucos sobreviveram, mas mesmo assim passando por difíceis períodos de transição. Os terreiros do Gantois e do Axé Opô Afonjá nasceram nessas circunstâncias, originários da Casa Branca do Engenho Velho, que é a grande matriz cultural do Candomblé, fundado em meados do século passado e considerado o primeiro da nação queto.

Em alguns terreiros, a sucessão se faz preferencialmente em linha familiar de sangue, geralmente de mulher para mulher. Em outros, a nova mãe ou novo pai-de-santo é escolhido entre membros da alta hierarquia da casa, independente de laços de sangue.

O Candomblé do Gantois sempre foi dirigido por mulheres descendentes da fundadora, Maria Júlia da Conceição Nazaré. Está hoje no seu quinto governo, com Mãe Carmen, filha carnal de Mãe Menininha, Escolástica Maria de Nazaré, a mais famosa e venerada ialorixá de todos os tempos, e irmã de Mãe Cleuza, que sucedeu Menininha. Menininha foi mãe-de-santo por mais de meio século, tendo sucedido Mãe Pulquéria, sua tia-avó e filha da fundadora. Menininha herdou da tia tanto a propriedade civil do templo, como o cargo de mãe, como ela gostava de deixar bem claro. Maria Júlia, a fundadora, fazia parte da Casa Branca do Engenho Velho, que abandonou quando perdeu a disputa na sucessão. Apesar de se resolver tudo em família, a recente sucessão deixou muitas cicatrizes e muitos descontentes, que preferiam que assumisse a cadeira do Gantois uma filha de Mãe Cleuza.

O Axé Opô Afonjá foi fundado por Mãe Aninha, que também deixou a Casa Branca do Engenho Velho quando seu trono foi conquistado por outra pretendente. Sua terceira mãe foi Senhora de Oxum e hoje é governado pela sua quinta ialorixá, Mãe Stella de Oxóssi. Três importantes mães na história do Candomblé. Mas a segunda ialorixá, Mãe Bada, e a quarta, Mãe Ondina, marcaram apenas períodos de interregno de grandes disputas internas. Com a posse de Mãe Stella, quando o terreiro já se adaptara à ausência de Senhora, houve novas divisões, tendo Mestre Didi, filho carnal de Mãe Senhora, deixado o axé de sua mãe. No Axé Opô Afonjá a sucessão nunca foi por linha de sangue.

No Recife, dos terreiros centenários sobreviveu apenas o Sítio de Pai Adão, porém com grandes períodos de conflitos e decadência, acarretados pelo processo de sucessão do chefe, conflitos que se arrastam até hoje, quando é chefiado por Manuel Papai, neto carnal de Pai Adão, que sucedeu o pai e um dos tios, os quais passaram a vida em disputa entre si e com outros irmãos.

Em São Paulo, quando morreu Pai Caio de Xangô, o fundador do Aché Ilê Obá, subiu ao trono sua sobrinha Mãe Sílvia de Oxalá. Para evitar a partilha da rica propriedade do terreiro entre os herdeiros civis de Caio Aranha e o conseqüente fim do Aché Ilê Obá, Mãe Sílvia conseguiu promover o tombamento de seu terreiro pelo Condephaat, em 1990, embora o templo não pudesse ostentar, nem de longe, uma história de tradições nos moldes das casas da Bahia. O terreiro foi fundado apenas em 1974 e a própria nova mãe-de-santo tinha poucos anos de iniciada quando assumiu o cargo de ialorixá, nem era ebômi. O tombamento por um órgão oficial de preservação de tradições criou um inusitado mecanismo de legitimação no Candomblé paulista.

Escolhido o sucessor ou sucessora que guiará os destinos do terreiro, deve-se providenciar imediatamente uma cadeira nova em que se sentará o novo titular do posto mais alto da casa. A cadeira do falecido será guardada em ambiente sagrado para reverências eventuais, ou recolhida ao museu da casa, onde poderá ser apreciada pelos curiosos e interessados, como ocorre no Axé Opô Afonjá de Salvador e em outras casas tradicionais. Rei morto, rei posto. Uma nova cadeira será o centro do novo poder.

Bibliografia:

Braga, Júlio. A cadeira de ogã. Rio de Janeiro, Pallas, 1995.

Prandi, Reginaldo. Os Candomblés de São Paulo. São Paulo, Hucitec, 1991.

Fonte da Imagem: Casa de Ogum

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