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Posts de agosto \08\UTC 2009

POESIAS

Publicado por Administrador em agosto 8, 2009

Amados Irmãos,

quem tiver o talento de fazer poesias envie para nós (alexdeoxossi@povodearuanda.combr) que iremos publicar em nossos espaços aqui da internet, deixo abaixo links de algumas poesias retiradas do livro Orixás em Poesia” de Paulo Lourenço “Ramiro de Kali”.


EXÚ DE LEI

EXÚ

POMBAGIRA

OBALUAIÊ


IEMANJÁ

SAUDAÇÃO AOS ORIXÁS

OXALÁ

O MUNDO DOS ORIXÁS


OGUM BEIRA MAR


OBS.: Aproveite e faça sua inscrição em nossa Rede Social, que é uma versão melhorada do Orkut.

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A Reencarnação no Plano Social

Publicado por Administrador em agosto 8, 2009

PAISAGEM 1

Eugenio Lara

Novembro de 2002

1. Expiação e Progresso

Segundo a Doutrina Espírita, Deus cria os espíritos na simplicidade e na ignorância, tendo tempo e espaço para progredirem. Para que possam desenvolver suas potencialidades necessitam encarnar num corpo material. As encarnações são sucessivas e sempre muito numerosas, pois “o progresso é quase infinito.” (1)

Os espíritos falam sobre o papel da reencarnação na pergunta 167 de O Livro dos espíritos, onde Allan Kardec formula a seguinte questão: “Qual é a finalidade da reencarnação? Expiação, melhoramento progressivo da humanidade. Sem isso, onde estaria a justiça?”

Quando os espíritos respondem primeiramente que a reencarnação tem uma finalidade expiatória, eles não querem dizer que ela seja punitiva e condenatória.

A palavra expiação tem várias acepções (castigo, penitência, cumprimento de pena, sofrer conseqüências de, preces para aplacar a divindade etc.) que são comumente associadas à idéia de pecado e mortificação. Idéia essa estranha à concepção espírita.
Considerando as várias acepções existentes, a que mais se acomoda ao que os espíritos colocaram é a de “sofrer conseqüências de”, em conformidade com o livre-arbítrio e a Lei de Ação e Reação.

Sobre a finalidade da encarnação, os espíritos respondem que “Deus a impõe com o fim de levá-los à perfeição. Para uns, é uma expiação, para outros, uma missão. Mas, para chegar a essa perfeição, eles devem sofrer todas as vicissitudes da existência corpórea: nisto é que está a expiação.” (2)

O termo expiação, usado constantemente pelos espíritos, aparece acompanhado de uma explicação bem sintética e muito densa, quando analisada com mais cuidado.

O espírito, quando encarnado, acha-se sujeito a uma série de limitações impostas pelo seu corpo físico. Há as dificuldades de comunicação, transporte e a falta de uma série de instrumentos que o corpo não possui. “No físico, o homem é como os animais e menos bem provido que muitos dentre eles; a natureza lhes deu tudo aquilo que o homem é obrigado a inventar com a sua inteligência, para prover às suas necessidades e à sua conservação”. (3)

O ser humano, desde as cavernas até os nossos dias, tem buscado vencer suas limitações como espírito encarnado. Depois de um processo incessante de conhecimento e domínio da natureza, ele hoje exerce sobre ela um controle quase que total. Os transportes, os meios de comunicação, estão bem avançados e há um desenvolvimento das ciências nunca antes presenciado pela humanidade.

As vicissitudes da vida, que os espíritos responderam como sendo uma expiação ou missão, dependendo de cada um, têm levado o ser humano a desenvolver a sua inteligência para prover as suas exigências biológicas que, pela própria natureza humana, extrapolam o plano material, para se colocarem no plano moral e social. Através do contato interpessoal também busca a satisfação de necessidades de ordem psicológica pelo convívio, afeto e troca de emoções. Tais necessidades podem caracterizar uma situação de expiação, dependendo da forma como ele se relaciona e do grau evolutivo em que se encontre.

Para o Espiritismo, expiação, em suma, não tem significado de penitência, condenação ou punição. Seu significado, como os espíritos estabeleceram, é o de desafio à inteligência e à condição moral do espírito. Um desafio constante que visa promover o progresso individual e coletivo.

2. Visão Deturpada

Porém, para muitos, a reencarnação é tida unicamente como punição que o sujeito sofre pelas faltas cometidas em outras existências.

A Lei de Ação e Reação é considerada como uma lei mecanicista, que provoca situações determinadas autoritariamente por espíritos elevados, à revelia do reencarnante. Transparece a idéia de castigo divino, disfarçada por uma visão distorcida de muitos conceitos espíritas.

A influência do cristianismo ainda é muito forte, pois a nossa formação cultural se encontra imersa na idéias cristãs. Isso ocasiona, a priori, uma postura ideológica de rejeição quase que imediata, diante de qualquer conhecimento novo, ou de adaptação, aprisionando determinados conceitos espíritas ao pré-conceito já estabelecido ao longo das existências. É o que vem acontecendo no meio espírita onde a influência, principalmente do catolicismo, é muito marcante.

As visões deturpadas que se têm dos princípios fundamentais do Espiritismo provocam análises ingênuas, permeadas de misticismo e intenções salvacionistas. A Lei de Ação e Reação, aplicada mediante a reencarnação, vem assim fundamentar a idéia de que o nosso planeta seja um local de sofrimento, que viemos aqui para pagar e sofrer, tendo que nos conformar com a nossa situação existencial. E, para enfrentar tal realidade, busca-se a “reforma íntima” para se livrar do expurgo do Terceiro Milênio, transportando para o Espiritismo a idéia de Juízo Final, aceita pelo cristianismo.

3. Reencarnação e Alienação

Esses pensamentos fatalistas e antidoutrinários aprisionam as pessoas num moralismo bitolante, estabelecem um modelo de comportamento inautêntico, que busca mudanças através de um conjunto de regras, onde o mundo passa a ser dividido de forma maniqueísta, entre o que se deve e o que não se deve fazer.

Devido a essas deturpações doutrinárias, efetuadas pelos espíritas desde que o Espiritismo começou a se difundir no Brasil, ele tem sido considerado, por eminentes pensadores de nossa época, como uma religião conformista, que anestesia as consciências, alienando os indivíduos dos problemas atuais, devido à visão de resignação que, segundo eles, é instituída pela idéia da reencarnação.

O Espiritismo é, acima de tudo, uma nova ordem de idéias acerca da vida e da existência do ser humano como criatura imortal e perfectível, tendo todas as condições conceituais para ajudar a promover uma revolução cultural no nosso planeta.

A lei dos renascimentos sucessivos, segundo a visão espírita, abre perspectivas nunca antes contempladas. A imortalidade, exercitada pelo espírito ao longo de suas existências num processo contínuo de evolução infinita, vem elucidar uma série de questões que vão desde o plano biológico, psicológico ao plano social, até então inexplicáveis, tanto pelos espiritualistas como pelos estudiosos das leis que regem o mundo material.

Conforme Allan Kardec, “a encarnação não é uma punição como pensam alguns, mas uma condição inerente à inferioridade do espírito e um meio dele progredir” (4); “a encarnação é necessária ao duplo progresso moral e intelectual do espírito; ao progresso intelectual pela atividade obrigatória do trabalho; ao progresso moral pela necessidade recíproca dos homens entre si. A vida social é a pedra de toque das boas e más qualidades”. (5)

4 – O Social na Visão Reencarnacionista

O retorno à vida corporal demonstra a soberana bondade e justiça do Criador, que sempre oferece uma nova oportunidade de reajuste e continuidade do trabalho não concluído. Faz parte da Lei de Progresso, que ocorre tanto em nível individual como coletivo, onde os planetas e até as galáxias acham-se submetidos à evolução.

O espírito, de posse de seu livre arbítrio, estabelece a sua situação no relacionamento com os companheiros em evolução, frente a problemas que necessita solucionar através do trabalho constante. Estando encarnado, dá continuidade ao seu processo de crescimento em todos os sentidos. Os sofrimentos individuais e coletivos têm, desse modo, a sua razão de ser, pois cada um constrói a sua própria vida e está aqui não para simplesmente sofrer, de forma abnegada e impassível, mas para vencer a si mesmo e superar os problemas causados pelas suas imperfeições, sua inexperiência, seja na família ou na sociedade.

Todos os obstáculos a serem removidos pela nossa atuação não existem ao acaso. Por outro lado, a nossa existência não é projetada arbitrariamente pelo “plano espiritual”. Trata-se de uma condição natural determinada pelo nosso estágio evolutivo.

A injustiça e a opressão sociais estabelecem relações que definem situações existenciais utilizadas pela Natureza para a evolução dos espíritos, que pelas suas necessidades de reajuste educativo, reencarnam em um meio adequado e conveniente para com o gênero de provas no qual aspiram.

A escolha das provas existenciais que desejam experimentar é feita livremente, de acordo com sua capacidade e merecimento, assessorados, segundo a teoria espírita, por espíritos mais elevados, responsáveis pelos renascimentos físicos. As chamadas provas existem para serem enfrentadas e vencidas, constituindo um desafio para o espírito, artífice da sua própria evolução.

O entendimento da lógica da organização social necessita do conhecimento de sua estruturação interna e de como se deu historicamente o estabelecimento das atuais relações econômicas.

A leitura e o estudo de diversos pensadores que se debruçaram sobre as questões sócio-econômicas, como Keynes, Marx, Engels, Weber etc., ao lado da Kardequiana e de seus continuadores, oferece condições para que haja uma interpenetração conceitual, que resultará numa visão fundamentada do fenômeno social segundo o Espiritismo. No entanto, o que se tem notado no movimento espírita é uma reação a qualquer tentativa de se intervir no plano social, cabendo lembrar a pressão e a marginalização que sofreram os integrantes do MUE (Movimento Universitário Espírita) nos anos 60, que marca um deprimente episódio da história do Espiritismo no Brasil.

A problemática social ainda é justificada inocentemente pela Lei de Ação e Reação e se não tomarmos cuidado, repetiremos erros históricos, como no caso da Índia, onde as castas eram justificadas pela reencarnação devido a interesses ideológicos que desfiguram a sua divulgação para as massas.

O social, dentro da perspectiva reencarnacionista, apoiada nas teorias sociológicas, torna-se mais abrangente, abrindo campos de análise ainda desconsiderados pelos cientistas sociais e pelos próprios espíritas. O seu entendimento possibilita condições para se analisar a injustiça e as desigualdades sociais, onde os espíritos encarnados diante de tal quadro, geram conflitos necessários à mudança da ordem social, em busca de seu bem-estar, caracterizando tais conflitos, o que Karl Marx denominou de luta de classes. “As convulsões sociais são a revolta dos espíritos encarnados contra o mal que os oprime, índice de que anseiam por um reino de justiça, do qual têm sede, sem entretanto saberem bem o que querem e os meios de consegui-los.” (6)

“O bem-estar é um desejo natural” (7) que predomina em todos os homens. Se desprovidos das condições essenciais para a sua reprodução e conservação, se revoltam violentamente ou, em outro extremo, devido à ideologia dominante e conservadora, se conformam. A busca do bem-estar, segundo o Espiritismo, é necessária e nunca será um crime se for conquistada sem o prejuízo de alguém.

Os espíritos sustentam que as desigualdades sociais não são obra de Deus, são obras dos homens e serão eles próprios que através de existências sucessivas irão eliminando essas desigualdades.

Humberto Mariotti, em sua magistral obra Parapsicologia e Materialismo Histórico (Edicel – 2ª edição/cap. XVI) coloca o seguinte:

“A reencarnação, ou lei palingenésica, não justificará, como ainda se pretende, as desigualdades sociais. A lei de causalidade espiritual ou existencial não determina as formas de sociedade, pois o destino individual do homem carece de força histórica para estabelecer um regime social, baseado no sistema de propriedade privada”, e acrescenta ainda que “a lei de renascimento origina destinos individuais, mas não poderá jamais determinar sistemas sociais. Os sistemas ou formas de convivência social, estabelece-os a ciência da sociedade, elaborada pelo mais brilhantes espíritos”.

A existência de comunidades desprovidas de recursos essenciais a sua existência nunca será legitimada pela reencarnação, pois sabemos que, historicamente, os ricos sempre foram minoria, havendo portanto uma desproporção aritmética entre ricos e pobres que, em todos as épocas da humanidade, constituíram a grande massa.

A aceitação conformista dos problemas de natureza econômica e política, concebendo-os como algo estático e insensível a mudanças pelas nossas ações, vem atender aos interesses de uma elite que quer se perpetuar no poder. A necessidade de se transformar a nossa sociedade desigual em uma sociedade igualitária torna-se um dever, implicando numa melhoria do planeta em que vivemos a fim de que todos possamos progredir de forma sadia e adequada.

5. Individual e Coletivo

Através da reencarnação ocorre uma integração constante entre o mundo físico e o extrafísico. Um reage sobre o outro, incessantemente. Tanto os espíritos quanto os homens, que são também espíritos, desempenham um papel imprescindível no aperfeiçoamento da humanidade, pois além de promoverem seu progresso individual, estão colocados “em condições de enfrentar sua parte na obra da criação.” (8)

Afirma o pensador espírita Herculano Pires, com muita propriedade, que “a renovação do homem implica a renovação social, mas desde que o homem renovado se empenhe na transformação do meio que vive, sendo esta, aliás, a sua indeclinável obrigação.” (9)

Essa posição é reafirmada por Herculano nas seguintes palavras: “melhorar apenas o homem numa estrutura imoral equivaleria a melhorar a estrutura com um homem imoral” (10) e “transformar o mundo pela transformação do homem e transformar o homem pela transformação do mundo, eis a dialética do Reino.” (11)

É um equívoco pensar que o Espiritismo propõe a renovação social a partir de uma transformação individualista e que os seus princípios levem o indivíduo a promover a sua transformação na intimidade de sua consciência, sem se politizar e desempenhar o seu papel social como espírita e ser político que é.

Allan Kardec afirma que o “resultado de todos os progressos individuais é o progresso geral” (12) e complementa essa afirmação ao dizer que “a aspiração do homem por uma ordem de coisas melhor que a atual é um indício certo da possibilidade de que chegará a ela. Cabe, pois, aos homens amantes do progresso, ativar este movimento pelo estudo e a prática dos meios que julgam mais eficazes.” (13)

O homem, “concorrendo para a obra geral, também progride” (14). É parte primordial da sociedade e a sociedade, seu espaço de integração. Assim como não pode viver sem a sociedade, a sociedade sem ele deixaria de existir. Um reafirma o outro. “No isolamento o homem se embrutece e se estiola” (15) e a necessidade de sociabilização se impõe como um impulso natural, necessário para o seu progresso e o da coletividade.

Pelos renascimentos sucessivos, o trabalho elaborado em prol de uma sociedade mais fraterna nunca será em vão, pois além de ser uma herança para os que momentaneamente permanecem encarnados, será uma futura recompensa para quem reencontrar a realidade que ajudou a transformar.

Notas Bibliográficas

(1) O Livro dos Espíritos – Allan Kardec – pergunta 169 (Lake – 41ª edição).

(2) Idem – pergunta 132.

(3) Idem – pergunta 592.

(4) A Gênese – Allan Kardec – cap. XI – item 26 (FEB – 20ª edição).

(5) O Céu e o Inferno – Allan Kardec – cap. VIII/&8. (FEB – 22ª edição).

(6) Obras Póstumas – Allan Kardec – 1ª parte/As Expiações Coletivas (Lake – 2ª edição).

(7) O Livro dos Espíritos – pergunta 719.

(8) Idem – pergunta 132.

(9) Espiritismo Dialético – J .Herculano Pires; O Indivíduo e o Meio. (edições A Fagulha – MUE).

(10) O Reino – J.Herculano Pires. Cap. VIII (Edicel – 1ª edição).

(11) Idem – cap. VIII.

(12) Obras Póstumas – Allan Kardec – 2ª parte/Credo Espírita.

(13) Idem – Allan Kardec – 2ª parte/Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

(14) O Livro dos Espíritos – pergunta 132.

(15) Idem – pergunta 768.

Texto originalmente publicado no periódico santista Espiritismo e Unificação (maio de 1985).

Eugenio Lara é arquiteto e jornalista. Membro-fundador do Centro de Pesquisa e Documentação Espírita (CPDoc) e do Instituto Cultural Kardecista de Santos, redator do jornal espírita Abertura e um dos coordenadores do site PENSE – Pensamento Social Espírita.

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SOLUÇÕES PARA O PROBLEMA DA INTOLERÂNCIA RELIGIOSA:

Publicado por Administrador em agosto 6, 2009

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SOLUÇÕES PARA O PROBLEMA DA INTOLERÂNCIA RELIGIOSA: CUMPRIMENTO DA LEI E EDUCAÇÃO PARA A ÉTICA, O RESPEITO À DIVERSIDADE E À LIBERDADE.

Por Cristina Zecchinelli

SOLUÇÕES PARA O PROBLEMA DA INTOLERÂNCIA RELIGIOSA: CUMPRIMENTO DA LEI E EDUCAÇÃO PARA A ÉTICA, O RESPEITO À DIVERSIDADE E À LIBERDADE. Por Cristina Zecchinelli

“Historicamente, a intolerância está presente na esfera das relações humanas fundadas em sentimentos e crenças religiosas. É uma prática que se autojustifica em nome de Deus; adquire o status de uma guerra de deuses encarnados em homens e mulheres que se odeiam e não se suportam.” ( Antonio Ozaí da Silva )

“De algo sempre haveremos de morrer, mas já se perdeu a conta aos seres humanos mortos das piores maneiras que seres humanos foram capazes de inventar. Uma delas, a mais criminosa, a mais absurda, a que mais ofende a simples razão, é aquela que, desde o princípio dos tempos e das civilizações, tem mandado matar em nome de Deus”.(José Saramago – O Fator Deus, 2001)

A intolerância religiosa é uma doença que de tempos em tempos torna-se epidêmica e precisa de tratamento continuado e prevenção. É um mal social, cuja cura passa pelo cumprimento da lei e pela educação. Um mal que atinge uma camada imensa da população global, que fere a dignidade humana, e a liberdade consciencial, que se baseia no preconceito, na discriminação e na pretensão de alguns em serem “os donos da Verdade”, que se sentem possuidores de alguma “procuração de Deus” para em seu nome, achincalhar, invadir, prender, torturar, matar, espoliar, e por fim,exterminar o outro.
E o outro é aquele a quem não se dá o direito de ter pensamento próprio, aquele a quem não se dá a liberdade de ser quem é, aquele que o intolerante julga intelectual e moralmente incapaz de fazer uma escolha “certa”. Porque qualquer escolha que não seja a sua – do intolerante- é errada.
Para se tentar acabar com a intolerância, é imprescindível tratá-la como doença, cujos remédios são a detecção e denúncia de sua existência, a exigência do cumprimento da Lei e, para prevenir sua recidiva e evitar o surgimento de novos casos; a execução uma ação intensiva e continuada de conscientização e educação plena de idosos, adultos, adolescentes e crianças; uma educação para a tolerância, para a compreensão, para a alteridade e o respeito. Num processo que envolva o comprometimento de toda a sociedade.

As justificativas dadas pelos intolerantes, principalmente pelos intolerantes religiosos vão desde a necessidade do cumprimento das “Leis de Deus” interpretadas e manipuladas a seu bel prazer, por interesses bem humanos e pouco religiosos – que no caso do Brasil desrespeitam a Constituição Federal – às questões de “segurança nacional” como ocorreu na América do Norte em relação ao Iraque.

A história nos mostra que a discriminação e a intolerância religiosa, foram e são responsáveis por guerras, fratricídios, genocídios, holocaustos, por divisões entre famílias e ódios milenares que são repassados e cultivados geração a geração por séculos, até que se percam da memória os reais motivos por que começaram. São frutos da manipulação política, social, econômica e ideológica. Criadas por mentes que anseiam pelo poder e a riqueza, tentam usurpar do Homem o direito e a capacidade de autogestão espiritual, de pensar e agir conforme suas próprias convicções, de avaliar por si mesmo o mundo em que vive.

A intolerância religiosa nasce da “fé cega” e não raciocinada de muitos dirigida pela astúcia de uns poucos que se aproveitam dos fiéis para obter poder, riqueza e vingança. Vingança quanto àquilo que não encontram em si mesmos, resultante da inveja, do ressentimento e da incapacidade de ser verdadeiro, original, de encarar de frente a luta para se ver livres de suas fraquezas, de agir com liberdade, de ser feliz . Nasce do desejo de destruir no outro aquilo que mais se admira, porém não se tem força, determinação, ousadia ou poder para ser.

A intolerância nasce da mesquinhez humana, do medo de ser, de fazer-se Ser, de ousar, de arriscar o novo, de pensar, questionar e refletir sobre o que já está estabelecido. Nasce da aceitação rancorosa das regras e dogmas contra os quais não se tem coragem de lutar, levantar a voz ou a dúvida.

Busque-se o intolerante e encontrar-se-á uma mente fechada, um espírito enrijecido, ressentido, engessado por sua própria deturpação da realidade. E que por isso mesmo precisa manipular o mundo à sua volta de modo a sentir-se seguro; convencendo esse mesmo mundo da necessidade de fechar-se em dogmatismos, fundamentalismos e fanatismos. Levando o fiel a um não-pensar, condicionando-o a um pensamento único e repetitivo, ao jugo de uma mentalidade tão estreita que dela não possa libertar-se e ao convencimento de que assim terá uma parte desse poder para si.

É certo que as massas se inflamam e se deixam levar por um bom orador. Não faltam exemplos na história. Sabemos que a repetição de uma inverdade não faz com que ela se torne “a Verdade” porém, pode levar muitos a crer que assim o seja.

Se o gérmen do fanatismo é individual, talvez presente de forma latente no Homem, se ele pode ser despertado e cultivado através do convencimento, da incitação, da repetição e do incutir continuado da idéia de estar cumprindo uma “missão sagrada”, um “designo divino” que pode livrar o homem do inferno e levá-lo ao paraíso; por outro lado há no ser humano toda uma generosidade, uma capacidade de empatia e de compreensão, de amor e fraternidade que precisa ser trabalhada quotidianamente em prol do bem comum, do cumprimento da lei, da tolerância religiosa e da liberdade.
Para se tentar acabar com a intolerância faz-se necessária uma ação de conscientização e educação plena de anciãos, adultos, adolescentes e crianças. Uma educação para a tolerância, para a compreensão, a alteridade e o respeito. Num processo que envolva o comprometimento de toda a sociedade. Idéia muito bem explicitada por Nelson Mandela:
“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender; e, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar.”

Paulo Freire explica que ensinar exige aceitação do novo, rejeição a qualquer forma de discriminação, consciência de inacabamento, respeito à autonomia do educando, bom senso, humildade, tolerância, e também nos mostra que a educação é ideológica, portanto para modificar o quadro da intolerância faz-se necessário que a educação tenha uma ideologia pró-tolerância, pró-respeito, pró-alteridade. Que entre o que pregamos e o que efetivamente vivenciamos haja coerência, constância , exemplificação e assunção de si.

As crianças antes mesmo de entrarem para a educação formal nos observam e gravam em seus inconscientes os pequenos ou grandes gestos em que contradizemos ou confirmamos nossas palavras. Disso resulta que se não nos educarmos primeiramente, se não corrigirmos primeiro nossos vícios preconceituosos não conseguiremos alterá-los nas mentes das próximas gerações. As mentalidades se alteram em velocidades mais reduzidas que as modificações físicas do mundo.

Cabe aos incomodados, seja pela intolerância que vivenciam seja pela que vêem outros vivenciarem, a vigilância sobre o efetivo cumprimento da lei, o auto-policiamento de forma a não cair no mesmo erro que condena em outros, e a responsabilidade de agilizar e perseguir com garra e determinação a mudança de mentalidade necessária à criação de um futuro verdadeiramente fraterno, igualitário e livre.

Montesquieu que em 1715 já nos dava sua opinião sobre a questão da intolerância religiosa:

“Admito que a história está repleta de guerras de religião. Mas é preciso prestar bem atenção. Não foi a multiplicidade de religiões que produziu essas guerra, foi o espírito de intolerância que animava aquela que se julgava dominante.(grifo nosso) È esse espírito de proselitismo, que os judeus tomaram dos egípcios e deles passou, como doença epidêmica e popular, aos maometanos e cristãos.
É finalmente esse espírito de vertigem, cujos progressos não podem ser considerados senão como um eclipse total da razão humana.
De fato, finalmente, se não houver desumanidade em afligir a consciência dos outros , se disso não resultasse nenhum dos maus efeitos que pululam aos milhares, seria preciso ser louco para voltar-se contra isso. Aquele que quer me levar a mudar de religião não o faz sem dúvida senão porque ele não mudaria a sua, caso se quisesse forçá-lo a isso; acha estranho, contudo, que eu não faça uma coisa que ele próprio não faria talvez em troca do domínio do mundo.” (Montesquieu)

E de certa forma sugeria ao intolerante que começasse a refletir sobre suas motivações, tentasse olhar a si mesmo com o olhar do outro.

A discriminação, filha do pré-conceito que impede o homem de observar de forma “desarmada” o mundo à sua volta e que o impele a julgar e condenar sem antes perceber com alteridade, é por sua vez mãe da intolerância, que exige dos seus adeptos posicionamentos irrefletidos, confeccionados em cima do suposto direito de ser o dono de uma “verdade única”, indiscutível, intocável, somente a eles pertencente.

Nietzche, em sua “Genealogia da Moral” já nos falava dos ressentidos, aqueles que por incompetência para a ação, covardia ante a luta pela liberdade, e humilhados pelo próprio reconhecimento de sua fraqueza de caráter, criam mecanismos para através da religião, do medo do inferno, do conceito de pecado dobrar aos seus caprichos as consciências nobres e livres mantendo-as cativas de suas imposições. Adquirindo poder não pela força, coragem e ousadia, que não têm, mas pela transformação dos conceitos de bom e mau, do bem e do mal. Pela inculcação de idéias distorcidas e torturadas, usadas “em nome de Deus” de forma a assenhorear-se do poder sobre as consciências e os atos humanos.

Sob a bandeira do “em nome de Deus”, os homens matam, saqueiam, estupram. Pela “honra” de Deus e em “Seu” nome destroem vidas, famílias e futuros. Prendem, torturam, queimam. Designam mesmo se o outro ser humano pode ou não ter uma alma.

Passam horas remoendo ressentimentos, orquestrando planos de dominações, vinganças e extermínio. Discriminam porque discriminar faz com que se sintam melhores ante seu Eu interior, que os condena pela própria covardia e inépcia diante da vida. Tornam-se intolerantes e levam outros à intolerância, pois essa é a sua forma de vingança, de obtenção de poder e força. Usam o nome da divindade como se Ela lhes pertencesse, e lhes coubesse o dever de manipulá-la. Em sua megalomania sentem-se o próprio Deus: oniscientes, onipresentes e onipotentes, porém sabem lá no fundo de si mesmos que são iníquos.

A história prova que o Homem pratica a discriminação e a intolerância numa constante, com alguns lapsos de tempo em que o interesse político se sobrepõe da alguma forma ao interesse religioso e permite outras formas de manifestação da fé, coibindo por certo tempo os intolerantes.

Intolerância intra-religiosa.

A Intolerância não ocorre somente em relação a membros de outras crenças. Ocorre também numa versão intra-religiosa , sob certos aspectos ainda mais grave e menos compreensível. Os motivos são os mesmos: pretensão de possuir a “verdade única”, desejo de poder, necessidade de dominação do outro, falta de educação para a alteridade, o respeito e a ética, e principalmente, no caso do umbandista, falta de coerência entre aquilo que prega, o que realmente pensa e vivencia na prática cotidiana. Falta de internalização da doutrina umbandista em sua essência.

É normal que surjam discordâncias de opinião entre membros de uma mesma religião, o que não se pode é admitir que isso se torne discriminação e intolerância, que levam é a desunião e à destruição da fé. O umbandista prepotente e preconceituoso nega a própria Umbanda em seus princípios de igualdade, compreensão e respeito. E o faz, certamente sem o aval da espiritualidade, embora pretenda fazê-lo por ela e em nome dela. Sendo a Umbanda, como é, uma religião de diversidade, multiplicidade, igualdade, nascida para abarcar em seu seio todo aquele que dela precisar, sem preconceitos e discriminações, trazendo desde sua “anunciação” a determinação de incluir os excluídos, compartilhar conhecimentos, como indicam as frases atribuídas ao Caboclo das Sete Encruzilhadas

“Será uma religião que falará aos humildes, simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmãos, encarnados e desencarnados.”

“e nós aprenderemos com aqueles espíritos que souberem mais e ensinaremos aqueles que souberem menos e a nenhum viraremos as costas”

E ainda, diz o Caboclo, referindo-se aos espíritos trabalhadores da Umbanda:

“Aqui inicia-se um novo culto em que os espíritos(…) poderão trabalhar em benefícios dos seus irmãos encarnados, qualquer que seja a cor, raça, credo ou posição social. A pratica da caridade no sentido do amor fraterno, será a característica principal deste culto, que tem base no Evangelho de Jesus e como mestre supremo Cristo”.

Se a intolerância religiosa é algo nada divino e pouco humanitário, quando passa a ser intra-religiosa se torna mais absurda e revoltante, incoerente e hipócrita. As correntes de pensamento dentro de uma mesma crença podem ter visões diferenciadas e mesmo alguns projetos e pontos de vista divergentes sem por isso perder-se da essência da religião, e mais, é provável que seja a partir dessas diferenças que as religiões se atualizem em certos aspectos e aumentando suas condições de sobrevivência através dos tempos. Isso não quer significar que tenham por isso que se digladiar ou que não possam chegar a um consenso.
Encontramos divergências internas no Judaísmo, no Cristianismo, Islamismo e em quase todas as outras religiões, faz parte do aspecto mais humano delas. Mas souberam se unir e se preservar apesar das diferenças.

No entanto, a mesma situação, quando ocorre entre umbandistas causa triplo efeito:

1º) Contraria os fundamentos da religião;

2º) dá aos detratores externos mais argumentos contra o todo umbandista,

3º)Gera desunião e mau exemplo.

Mas principalmente demonstra que esse umbandista, nada aprendeu com a Umbanda ou sobre a Umbanda. Como escreve Etiene Sales :

“Em uma época em que a Umbanda e o Candomblé sofrem cada vez mais ações de preconceito e discriminação, fora as diversas perseguições de algumas denominações Evangélicas (seja através de relações ilegais com o tráfico, seja por ataques nos meios de comunicação: rádio e televisão, principalmente), os Umbandistas não conseguem perceber o seu próprio preconceito interno e contra os Candomblecistas.”(…) “É estranho o Umbandista gritar contra o preconceito que sofre por parte de outras religiões, mas não conseguir enxergar o preconceito existente dentro da própria Umbanda.”

Lembra portanto, que o Umbandista intra-preconceituoso precisa reavaliar seus conceitos, reeducar-se, repensar-se enquanto umbandista e ser humano.

Conclusão

Parece só haver uma maneira de se tratar a intolerância. Faz-se necessário educar para a tolerância, a alteridade e a compreensão. Esse processo precisaria alcançar desde os mais idosos aos recém nascidos, visto que é do berço que se começa a educar o ser. Posto que, é desde a mais tenra idade que o ser humano ao observar ainda que de forma inconsciente o mundo a sua volta começa a criar dentro de si seus conceitos e pré-conceitos que poderão levá-lo à discriminação e à intolerância. Logo, se não educarmos cotidianamente a sociedade para o respeito ao outro e para tolerância jamais poremos fim ao preconceito, à discriminação e a intolerância.

Combater esses males sociais é dever de todos, responsabilidade à qual não podemos nos furtar. Ao Estado, cabe fazer cumprir o que determina a Constituição Federal e punir com o rigor da lei aqueles que violarem o previsto no artigo 5°CF e em outras leis afins. Ao cidadão cabe a denúncia do ato de intolerância ou discriminação e a cobrança junto aos órgãos competentes para cumpram sua função.

A Umbanda, religião brasileira, nascida sob a égide da igualdade e da fraternidade, da inclusão e da caridade, não permite nem deverá jamais permitir que entre seus adeptos ou por parte deles surja qualquer tipo de discriminação ou intolerância sob qualquer pretexto ou nominação.

No entanto, essa mesma Umbanda, multifacetada, multirracial, multi-étnica, plural, que vive a diversidade sem desigualdade, que respeita a fé e as formas de manifestação de crença de outros , é continuamente atacada e agredida (interna e externamente) , e por mais que a maioria de seus adeptos busquem a paz , o respeito e a compreensão do outro é chegado o momento de fazer valer a Lei e que dá ao homem o direito de escolher e praticar livremente a sua religião e tê-la respeitada e resguardada contra ataques de intolerantes.

Cabe ao umbandista como membro de uma religião pacifista , includente, e a favor da diversidade, como homem e como cidadão, agindo dentro da ética , da Lei e de acordo com os princípios da Umbanda fazer valer seus direitos. E Isso começa pela assunção de sua condição de umbandista, brasileiro e cidadão que cumpre seus deveres e obrigações, e exige que sejam respeitados seus direitos. Essa mesma premissa exige que se comece de dentro, através do combate a discriminação intra-religiosa.

Fica a cumprir a tarefa que pertence a todo brasileiro consciente: contribuir através da educação e do exemplo e da ação positiva para a transformação do Brasil – cuja vocação é a multiplicidade de raças, credos e etnias – em um país onde as diferenças sejam verdadeiramente respeitadas, a diversidade cultivada, a lei cumprida, a desigualdade e a intolerância banidas para que tenhamos mais que nunca orgulho de chamá-lo: Nossa Pátria, Brasil!

Por fim, deixo aos umbandistas uma reflexão contida na mensagem de Etiene Sales:
“Devemos aproveitar esse momento de oportunidade divina, mediante a adversidade da intolerância de outras religiões, para acabar com as nossas próprias intolerâncias internas. Devemos aproveitar o momento para criar uma união de fato. Algo lento e gradativo, mas que é necessário a nossa existência, pois necessitamos muito uns dos outros, pois unidos seremos fortes, desunidos seremos sempre presas fáceis e frágeis, mediante a qualquer conflito que nos cerque”

Comunicação apresentada no Seminário Preparatório para o I Congresso de Umbanda do Século XXI, Realização: Faculdade de Teologia Umbandista (FTU), Apoio: CONUB e UERJ

Bibliografia :

MONTESQUIEU, Charles-Louis de Secondat , CARTAS PERSAS II – Coleção Grandes Obras do Pensamento Universal, – São Paulo : Escala, 2006

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm – A GENEALOGIOA DA MORAL – Coleção Grandes Obras do Pensamento Universal , – São Paulo : Escala, 2006

JORNAIS :
SARAMAGO, José – O FATOR DEUS – Folha de São Paulo, 19/09/2001

SITES:

SILVA , Antonio Ozaí da – REFLEXÕES SOBRE A INTOLERÂNCIA

Guimarães, Lucilia e Garcia, Eder Longas, revista e atualizada por Thashamara ) http://www.nativa.etc.br/umb_conceito_pesquisa_003.html

SALES , Etiene- A DOR QUE SOFREMOS PELA INTOLERÂNCIA DO OUTRO E A NOSSA PRÓPRIA INTOLERÂNCIA. 16/04/2008.

Outras fontes:
Cartilha em defesa da liberdade de crença religiosa – disponível para download (CLIQUE AQUI)

Diversidade religiosa e direitos humanos

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PONTOS DE OBALUAIÊ e OMULU

Publicado por Administrador em agosto 5, 2009

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