POVO DE ARUANDA

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Archive for 27 novembro, 2007

O Canto do Sabiá e o Pio da Coral

Posted by Administrador em novembro 27, 2007


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Portas abertas e olhos fechados nas novas perspectivas de entendimento do Orixá

 

Thiago Luiz Ferreira Miranda

 

Já com algum tempo de leituras e pesquisas incessantes sobre o assunto, a Umbanda me aparece com o curioso aspecto de religião em formação. Muitas são suas faces. Teses são apresentadas sobre seus múltiplos aspectos, almejando sempre a expressão completa, a totalidade das Leis que a regem, ou seja, sua Codificação.

Do muito e do pouco já dito, aparecem alguns pontos comuns, a presença das manifestações espirituais de antepassados culturais brasileiros como o preto-velho, o caboclo, o boiadeiro e tantos outros que se “manifestam” nos inumeráveis terreiros espalhados por este Brasil afora. Do uso da magia para fins diversos e cânticos sagrados (as curimbas), não há terreiro ou tenda que não possua.

Estamos então diante de um caldeirão fervendo, chamado Umbanda. Seus mistérios vão desde o seu nome correto uns dizem possuir origem sânscrita !, passando por sua origem – histórica ou mítica – e pelos Orixás – quais seus nomes corretos, quais deles devem ser cultuados e de que forma.

Uma dentre as várias correntes existentes no movimento umbandista, vem crescendo em aceitação, seja em sua prática ritualística, seja em sua parte teórica e mesmo no esboço para uma filosofia na ou da Umbanda. Digo pois da Umbanda Esotérica, cujo divulgador mais conhecido foi W.W. da Matta e Silva (1917 -1988) escritor de nove livros sendo que, o primeiro é também o mais importante deles, “Umbanda de Todos Nós”, primeira edição em 1956.

As dificuldades de entendimento desta raiz estão – assim como toda a Umbanda – imersos ainda em alguns véus, principalmente aos novos umbandistas, ou melhor, aos umbandistas que não tiveram a oportunidade de conviver com os primeiros praticantes desta religião. Infelizmente eu também não tive esta oportunidade, não obstante meu espírito intrigado e sedento por conhecimento das coisas às quais me interesso não me deixam desistir da pesquisa, da investigação, da procura pelos primórdios desta religião bem como suas diversas correntes que quem sabe num futuro próximo ou distante venham a se unir em nome de um conhecimento único ou constituir escolas de entendimento que apesar de distintas em suas práticas apenas fazem engrandecer a Umbanda.

Dois problemas lançarei à discussão neste texto. O primeiro deles é sobre a origem histórica desta Umbanda Esotérica e o segundo, sobre a mudança paradigmática operada por esta corrente no entendimento do Orixá, influenciando drasticamente em suas formas de culto, bem como o ponto arquimediano que vem permitindo esta operação.
Dois motivos principais me impulsionam a publicar este texto em caminhos virtuais: a busca por novas informações que possam engrandecer meus conhecimentos e a discussão por parte de todo o meio umbandista, principalmente os seguidores desta corrente, sobre as trilhas abertas nas Matas da Jurema por este diferente pensamento instaurado e nem sempre, creio eu, tão bem analisado ou discutido em seus alicerces. A sua adoção depende de modificações profundas no consciencial umbandista e que dificilmente estão sendo percebidas. E se o canto da Sabiá dentro das Matas da Jurema é sedutor, a picada da Coral é certeira, venenosa e quase sempre mortal.

Deixo claro que nenhuma das palavras que direi neste momento em nada afetam a importância dos personagens envolvidos, seja pelas idéias, seja pela influência que vem exercendo no espírito de tantos. Meu objetivo único é conhecimento, conhecimento, conhecimento. Respeitados aqueles que possuem conhecimento. Respeitada é a religião cujos integrantes tem conhecimento de suas origens e de sua doutrina.

No início deste texto disse que o maior divulgador da Umbanda Esotérica, teria sido Mestre Yapacani. Ao que nos consta , realmente o foi. Mas alguns fatos me levam a crer que apesar de reconhecida importância, não fora este insigne mestre o iniciador de tal doutrina dentre o meio umbandista.

No ano de 1941 fora realizado, dos dias 19 a 26 de outubro, na cidade do Rio de Janeiro, até então capital brasileira, o Primeiro Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda, com a participação de médiuns pertencentes a diversas Tendas, almejando por objetivo a apresentação de teses relacionadas à Umbanda em suas diversas matizes e interesses (estas teses estão registradas em um livro editado em 1942 pela Federação Espírita de Umbanda na época sito à rua São Bento n. 28 – RJ) Dentre elas estava a Tenda Espírita Mirim cujo delegado representante fora o sr. Diamantino Coelho Fernandes.

No dia 19 de outubro do transcorrido ano a Tenda Espírita Mirim apresentava a seguinte tese:

“O Espiritismo de Umbanda na Evolução dos Povos – Fundamentos históricos e filosóficos”.

Eis pequena parte da tese (transcrição literal) : “O vocábulo UMBANDA é oriundo do sanskrito, a mais antiga e polida de todas as línguas da terra, a raiz mestra, por assim dizer, das demais línguas existentes no mundo. Sua etimologia provém de AUM-BANDHÃ (om-bandá) em sanskrito, ou seja, o limite no ilimitado… A significação de UMBANDA (o correto seria Ombanda) em nosso idioma, pode ser traduzida por qualquer das seguintes fórmulas: Princípio Divino; Luz Irradiante; Fonte Permanente de Vida; Evolução Constante.”

Bem, nos encontramos diante do primeiro problema. Tais afirmações seriam editadas no ano de 1956 por Pai Matta o qual requer autoridade intelectual sobre tal tese, não por ter ele mesmo formulado tais explicações mas como por ele mesmo escrito em Umbanda do Brasil pag.74 em sua 2ª edição “…essa Revelação que originalmente nos foi feita pelo Astral Superior da Lei de Umbanda.”

Lembremo-nos que a primeira publicação de seu primeiro livro ” Umbanda de Todos Nós” seria em 1956 ou seja , aproximadamente 15 anos após o Primeiro Congresso do Espiritismo de Umbanda. Estamos portanto diante de duas informações, de dois fatos que não se coadjuvam.

Segundo pesquisas feitas pela Internet existe uma Federação no Rio de Janeiro tendo por nome Primado de Umbanda que professa os mesmos conceitos expostos por Mestre Yapacani, quanto à designação de 7 Orixás ( Orixalá, Ogum, Oxossi, Xangô, Yemanjá, Yori, Yorimá) bem como a concordância com a origem sanscrita da palavra Umbanda e o Nheenghatu (língua indígena derivada do Abanheegá, também indígena) usada com diversas finalidades dentro deste movimento, por exemplo, quanto à formação de nomes iniciáticos e mântras sagrados. Ao consultar a bibliografia usada por tal Federação bem como por todos os terreiros a ela filiados, constatei a não utilização dos livros de W.W. da Matta e Silva não obstante, dois livros formam citados como fonte e ambos anteriores a 1956 ou seja, anteriores à publicação de Umbanda de Todos Nós. Portanto, ou esqueceram de citar o uso de tal bibliografia, ou realmente estas explicações são anteriores a W.W. da Matta e Silva.

E curiosamente a entidade fundadora desta Federação chama-se Tenda Espírita Mirim, cujo fundador sr. Benjamim Figueiredo, médium do conhecido Caboclo Mirim, mesma entidade que apresentou a tese sobre as origens sanscritas da palavra Umbanda no Primeiro Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda.

Gostaria que pesquisadores, umbandistas ou não, mas sinceros e que de fato sejam conhecedores deste momento histórico na Umbanda possam me disponibilizar informações com as respectivas “provas” para que possamos traçar linhas mais claras sobre o desenvolvimento desta corrente na Umbanda. Volto a afirmar que meu interesse neste momento é única e simplesmente histórico e que quaisquer afirmações não influenciarão em nada a figura de Mestre Yapacani, portentoso médium cujo esforços em muito ajudou e ainda vem ajudando de forma vigorosa o movimento umbandista através de seus livros, mesmo após 45 anos de suas primeiras publicações e 12 anos de seu desenlace.Com todas suas bênçãos, Saravá Pai Matta!

Iniciarei neste momento o segundo ponto que me propus a discutir neste texto, as mudanças operadas pela Umbanda Esotérica no culto aos Orixás e o ponto arquimediano desta mudança. Peço a partir de agora um pouco da paciência dos leitores e atenção redobrada, pois talvez o texto se torne algo mais denso para compreensão.

Nada mais claro nos é hoje que, com a vinda dos africanos para o Brasil, vieram com eles também a suas religiões. Estas, com o passar dos tempos e outras causas que não cabe a este texto discutir se uniram e se amalgamaram constituindo então aquilo que hoje chamamos de Candomblé. O Candomblé possui como cerne de sua adoração os Orixás, chamados por uns de Inkices e por outros Voduns. Estes de modo geral foram antepassados dos povos que para cá vieram, como por exemplo, Xangô era rei da cidade de Oyó e Ogum da cidade de Irê. Com uma série de contos sagrados os itán-ifá, que hoje simplesmente identificamos por “lendas” do candomblé, constituem todo a base deste sério sistema religioso possuindo inclusive uma profunda filosofia nos conceitos para entendimento do Homem e a profunda integração com a Natureza.

Estes mesmos Orixás eram lembrados por seus feitos quando humanos, e pelos motivos de suas transformações em Orixás. A transformações destes homens importantes em Orixás por vezes remetem a uma guerra ou a uma grande paixão, podendo passar por grande ódio ou desilusão, ou por possuírem poderes de cura. Eram lembrados também por suas principais características na Terra ( Aye ), como ser justo, ou brigão, vaidoso, charmoso ou mesmo vingativo. A lembrança destes Orixás, portanto seus cultos consiste em oferendas destas ou daquelas comidas, panos de diversas cores, ou bebidas que mais os agradam e isto também relacionado a todo um sistema de práticas de magias e curandeirismos daquele povo, ou melhor daqueles povos.

Geralmente estes importantes homens ao se transformarem em Orixás tornavam-se elementos da Natureza como um rio, uma árvore, o mar, ou do Orum poderiam ter domínio de uma força natural como os trovões, as chuvas, as matas. Então podemos ressaltar que para os povos africanos e também em seus cultos no Brasil, a ligação dos Orixás é com a Natureza sendo eles próprios os elementos da Natureza ou Forças Divinizadas dela e não com os astros, cuja presença em todo o sistema de culto aos Orixás é inexpressiva ou mesmo inexistente. “Os iorubás como povos da floresta, pouco se interessam pelos astros, para eles, florestas e rios são mais importantes que a Lua ou as estrelas.” “A morada dos deuses iorubás, emblematicamente, não fica no céu, mas sob a superfície da terra.” ( Prandi ,R. 2002 ).

Tentarei agora a delimitar o problema que quero expressar.

A noção da “morada dos Orixás sobre a superfície da terra” é um conceito importantíssimo para este culto pois representa, a meu ver, um profundo enraizamento do homem na Natureza. Tudo está aqui e aos nossos olhos e mãos. Isto é o Orixá, os rios, o mar, as matas, as folhas e o vento e tudo isto que é a Natureza é o Orixá. Guardemos claramente isto em nossa mente e espírito.

Vejamos agora a mudança operada na Umbanda Esotérica:
Por diversas vezes Pai Matta em seus livros cita o nome de um pesquisador francês, Saint-Yves D’Alveydre.

Este pesquisador parece ter sido escritor de alguns livros, dentre eles “L’ Archéomètre”, ou “O Arqueômetro”. Poucas informações temos sobre o livro ou o autor mas, sabemos que ele apresenta um alfabeto dito como adâmico ou wattan, ou seja, um dos ou o primeiro alfabeto surgido entre os homens, segundo Mestre Yapacani. Sabemos ainda que este arqueômetro permitiu a ligação entre o dito alfabeto adâmico com os alfabetos hebraicos, sanscrito e latino, e destes com a numerologia bem como aos signos astrológicos.
Creio eu que a aplicação que a Umbanda Esotérica faz é, associar o nome dos Orixás à estas correlações dadas por Saint-Yves associando o nome do Orixá com suas correspondências numerológicas e astrológicas e daí a correlação com cores e dias da semana. Esta nos parece ser a grande diferença existente no ritual da Umbanda Esotérica. Isto a meu ver implica em drástica mudança ante o entendimento e culto do Orixá.

O Orixá como anteriormente dissemos, não está relacionado com o culto das estrelas ou quaisquer outras correspondências astrológicas, (apoiados estamos sobre pesquisas de respeitados antropólogos). O Orixá relaciona-se com as coisas da Natureza e não com a Lua ou as estrelas, segundo a Tradição.

Não que na Umbanda Esotérica a Natureza e seus reinos, sejam descartados mas tornam-se moradas deste ou daquele Orixá pelas influências astrológicas que estas exercem sobre este ou aquele reino. Então a relação do Orixá com a Natureza torna-se secundária !
Apenas sete tornam-se os Orixás cultuados, Oxalá, Ogum, Oxossi, Xangô, Yemanjá, Yori, Yorimá, sendo estes dois últimos termos completamente desconhecidos. Com uma interpenetração um pouco maior neste estudos e atenção nas leituras conseguimos entender o surgimento deste dois termos.

Yori é cultuado por todos como Ibeji, são as crianças, os erês, os populares meninos de angola. Existe uma discussão se Ibeji é Orixá ou não, mesmo nos cultos africanos onde parece realmente não ser. Aqueles que queiram se aprofundar nesta discussão , ver livro Os Candomblés da Bahia , Roger Bastide.

Quanto a Yorimá, peço a licença para a Ordem Iniciática do Cruzeiro Divino para reprodução de um pequeno trecho do artigo “Os Sete Grandes Mistérios” publicada na “Revista Umbanda – Uma Religião Brasileira” em seu número sétimo, mês maio /junho, do ano 1995, seu autor, William do Carmo Oliveira. Hei-la:

“Yorimá: conhecido nos meios externos da Umbanda , como Obaluayê, Omulu, Shapanan, Yorimá é o termo sagrado do Orixá que assim era fonetizado pela Antiga Raça Vermelha. Representa a terra.” .

Apresentando um mito de Obaluaye, que interpretado sob correlações numerológicas, chega-se a um mesmo valor numérico do termo Shapanan e Yorimá. Seriam portanto uma mesma força, um só Orixá.

A explicação dada para tais modificações seria que, os termos Yorimá e Yori seriam termos litúrgicos esquecidos nas “noites do tempo”, num glorioso passado da humanidade, de forma pura e límpida estas sete vibrações eram cultuadas. Os mais habituados a tais leituras verificam que sempre referentes aos termos Yorimá e Yori, estão vocábulos como, desvelado, reimplantado ou reaparecido.

Estes mesmos termos constituiriam a “Coroa do Verbo”, isto significa, termos sagrados para a movimentação das energias. Realmente, existe um mito narrando um nome oculto de Omulu/Obaluaiê, sendo, por algum motivo, muito perigoso ser pronunciado. Seria Yorimá !?

Na página virtual do “Primado de Umbanda”, complementar a estas informações, dizem: “… os fundamentos continuam os mesmos.” Será ?

As alterações também estão nas cores que representam as divindades. Estas anteriormente lembravam d’algum modo o Orixá e seus feitos ou moradas – por exemplo o verde das matas de Oxossi, ou o azul dos mares de Yemanjá, na Umbanda Esotérica sob as correspondências astrológicas tornam em amarelo, Yemanjá, Oxossi em azul, Ogum em alaranjado e Xangô, verde.

Problemas podem ser identificados; o primeiro relaciona-se ao ponto arquimediano desta operação, ou seja, o “arqueômetro”. Este livro ou aparelho faz relações entre os alfabetos wattan, sânscrito, hebraico e latino, não parece fazer diante das línguas e dialetos africanos. Não havendo a ligação entre estes alfabetos, improvável se torna a relação. Talvez o motivo de ligar estes termos litúrgicos africanos a um passado na Índia ou de um antepassado comum entre eles, expressados por Pai Matta e seus seguidores seja este.
Um último problema que vejo seria que Orixás tão queridos e importantes como Oxum, Iansã ou Nanã não mais podem assumir a “cabeça” de um filho, função esta restrita aos sete Orixás supracitados. Quais funções passam a assumir estes Orixás? Ou será que, sendas futuras, assim como fazemos nós, também chorarão termos sagrados, esquecidos nas brumas de um passado áureo, que incautos reformadores e seguidores pouco vigilantes não souberam honrar ?!

Espero que não tenha sido eu, pedante ao ponto de afastar-vos de meus escritos. Também deixo claro que sou “filho” da Umbanda Esotérica e que minha vivência nesta religião já trilhada por 6 anos initerruptos de práticas e estudos. Porém de olhos bem abertos tento caminhar.

Que a beleza do canto do Sabiá e a força presente na Cobra Coral acompanhem a todos os que por Amor à Verdade caminham devagar porém firmes.

SARAVÁ UMBANDA !

SARAVÁ TODOS OS ORIXÁS !

SARAVÁ MEU PAI XANGÔ!

SARAVÁ VOVÔ REI CONGO E CABOCLO SR.OGUM BEIRA MAR QUE ME ILUMINAM!

SARAVÁ!

e-mail:sapofilosofo@ig.com.br

13/09/2002

Fonte: http://br.geocities.com/nitrixbr/ensaio02.htm

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De Olhos Fechados

Posted by mrbodas em novembro 27, 2007


Marco Boeing – ASSEMA – Curitiba – PR

Sentado ali em frente de seu congá o velho pai de santo relembra com surpreendente nitidez sua infância e seu primeiro contato com espiritualidade.
Nitidamente ele se vê na tenra infância a brincar sozinho no amplo quintal da casa de seus pais.
Lembra-se que alguma coisa o fez olhar para as nuvens e diante dele uma estranha imagem se forma: um velho sentado ao redor de uma fogueira e um menino a ouvir-lhe estórias. De alguma maneira o menino ao ver aquela cena sabia que se tratava dele mesmo. O tempo passou e a cena jamais esquecida e também jamais revelada, o acompanha em sonhos e lembranças.
Cresce e acaba se tornando médium Umbandista. Aos poucos vai conhecendo seus guias, que vão tomando seu corpo nas diversas “giras de desenvolvimento”. Primeiro o Caboclo que lhe parece muito grande e forte, depois os demais… Até que, ao completar 18 anos, seu Exu também recebe permissão para incorporar.
Já não é mais médium de gira, a bem da verdade ocupa o cargo de pai pequeno do terreiro.
Percebe que não tivera uma adolescência como a da maioria dos jovens que lhe cercam na escola. Não vai a bailes, festas… Dedica-se com uma curiosidade e um amor cada vez maior à prática da caridade. Os anos passam e acaba pôr abrir seu próprio terreiro. Inúmeras pessoas procuram os seus guias e recebem um lenitivo, uma palavra de consolo e esperança.
Foram tantos os pedidos e tantos os trabalhos realizados que já perdera a conta. Viu inúmeras pessoas que declaravam amor eterno pela Umbanda e bastava que alguns pedidos não fossem alcançados na plenitude desejada que já se afastavam, criticando o que ontem lhes era sagrado…
Presenciou pessoas que, vindas de outras religiões, encontraram a paz dentro do terreiro, mantido a duras penas, uma vez que nada cobrava pelos trabalhos realizados (“Dai de graça o que de graças recebestes”).
Solteiro permanecia até hoje, pois embora tivesse tido várias mulheres que lhe foram caras, nenhuma delas agüentou ficar a seu lado, pois para ele a vida sacerdotal se impunha a qualquer outro tipo de relacionamento. Amava mesmo assim todas aquelas que lhe fizeram companhia em sua jornada terrena.
Brincava, o velho pai de santo, quando lhe perguntavam se era casado e respondia, bem humorado, que se casara muito cedo, ainda menino. A curiosidade dos interlocutores quanto ao nome da esposa era satisfeita com uma só palavra: Umbanda, este era o nome da esposa.
Com o passar do tempo, a idade foi chegando; muitos de seus filhos de fé seguiram seus destinos vindo eles também a abrirem suas casas de caridade. O peso da idade não o impede de receber suas entidades. Ainda ecoa, pelo velho e querido terreiro, o brado de seu Caboclo, o cachimbo do Preto-velho perfuma o ambiente, a gargalhada do Exu ainda impressiona, a alegria do Erê emociona a ele e a todos…
Enfim, sente-se útil ao trabalhar. Hoje não tem gira. O terreiro está limpo, as velas estão acessas e tudo parece normal. Resolve adentrar ao terreiro para passar o tempo, perdera a noção das horas. Apura os ouvidos e sente passos a seu redor, percebe que alguém puxa pontos e que o atabaque toca. Ele está de costas para todos e de frente para o congá. O cheiro da defumação invade suas narinas…
Seus olhos se enchem de lágrimas na mesma proporção que seu coração se enche de alegria. Estranhamente, não sente coragem ou vontade de olhar para trás, apenas canta junto os pontos. Fixa seus olhos nas imagens do altar, fecha os olhos e ainda assim vê nitidamente o congá, parece que percebe o movimento do terreiro aumentar.
Vira de costas para o congá e a cena o surpreende: vê Caboclos, Boiadeiros, Pretos Velhos, Marujos, Baianos, Erês e toda uma gama de Guias… Até Exus e Pomba Giras estão ali na porteira. Se dá conta que os vê como são, não estão incorporados. Todos lhes sorriem amavelmente.
Dentre tantos Guias, percebe aqueles que incorporam nele desde criança. Tenta bater cabeça em homenagem a eles, mas é impedido. O Caboclo, seu guia de frente, se adianta, lhe abraça, brada seu grito guerreiro… Os demais o aco Os demais o acompanham. O velho pai de santo não agüenta e chora emocionado… As lágrimas lhe turvam a vista. Fecha seus olhos e ao abri-los todos os guias ainda permanecem em seus lugares embora calados…
Nota uma luz brilhante em sua direção, Iansã e Omulu se aproximam, seu Caboclo os saúda e é correspondido. A luz o envolve completamente. Já não se sente mais velho. Na verdade sente-se jovem como nunca. Seu corpo está leve e ele levita em direção à luz. Todos os guias fazem reverência… O terreiro vai ficando longe envolto em luz… Ele sorri alegre… A missão estava cumprida…
No dia seguinte, encontram seu corpo aos pés do congá. Tinha nos lábios um sorriso…

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