A noite se avizinhava, lenta e preguiçosamente, trazendo em seu manto inconsútil milhares de estrelas brilhantes, como lantejoulas incrustadas em fino tecido de seda.
O movimento das ruas cessava aqui e ali, e até mesmo as avezinhas buscavam o aconchego dos seus ninhos para o merecido descanso de suas lides, pois o céu que se ia estrelando, esmaltava de uma certa glória aquela noite de Jerusalém.
A atmosfera vibrava de um particular encanto, e no ar notava-se uma aureola de paz que profetizavam as escrituras, sobre um certo profeta de Deus, que daria a sua vida para a remissão dos pecados das criaturas…
Em uma casinha simples, como todas as casas nos arredores de Jerusalém, encontraremos Jesus, o nazareno, sentado em silêncio e em sua companhia doze homens que se diziam seus apóstolos, uma mulher já idosa, um jovem mancebo e um menino que contava não mais que três primaveras.
A luz mortiça do candeeiro iluminava o recinto pálidamente, desenhando sombras fugidias nas paredes de tijolo cru, e todos permaneciam em reverente silêncio ao redor do Messias, como se procurassem ler os pensamentos daquele homem, que outorgava a Si mesmo o título de Filho de Deus e enviado do Altíssimo.
Jesus permanecia olhando o horizonte através da janela, perscrutando os astros notívagos sob o clarão da lua. Seus olhos profundos e sonhadores, buscavam nas luzes das constelações sidérias a inspiração musicada de seus Anjos, a fim de falar mais intimamente aos corações dos homens, tão necessitados de esclarecimentos…
Um profundo suspiro cortou o templário silêncio, e o Rabi olhou com imenso carinho os rostos á sua volta; rostos que ansiavam beber as palavras daquele Profeta, oriundas talvez da fonte de todos os corações humanos.
- Observai a luz do candeeiro…- Disse Ele, num misto de melancólica ternura – Um candeeiro se consome para iluminar-vos. Eu porém vos digo, que Meu coração vos ilumina sem se consumir…
Amai-vos uns aos outros como Eu vos tenho amado e amo; e vereis que esta chama, consagrada no Amor ardente de um coração sincero não se apagará como a chama de um candeeiro.
O candeeiro projeta claridades mortiças, lançando sombras confusas em vossas ilusões de grandezas, para depois apagar-se na indiferença do tempo e despedaçar-se na noite profunda de vossos sonhos…
Mas Eu Sou, na realidade de vossos mais íntimos desejos, a Paz que todos anseiam; a água cristalina que dessedenta a secura de vossos corações…
O amor ardente de meu coração unicamente vos iluminará com as divinas claridades do Reino de nosso Pai Celestial.
Amai com o Meu amor! Amai-vos uns aos outros com um amor semelhante ao Meu, só então conseguireis compreender o significado do Meu martírio e a esperança de Minha doação. Por que não há amor maior que este, de dar a sua vida por amor de seus irmãos…
A luz do candeeiro apagar-se-á, como se apagam todos os sonhos de grandezas e ilusões humanas, soprada na sepultura dos túmulos, pelas tormentas das provações, individuais e coletivas. Mas a chama do Meu coração que arde por vós não se apagará, posto que é uma Luz que se alimenta da compaixão, cresce na caridade e se fortalece na fonte inesgotável da sabedoria de Deus…
Adorai a Deus, mas com uma adoração renovada na caridade pelos vossos irmãos.
Amai a Deus, mas com um amor fortalecido pelo muito perdoar uns aos outros.
E buscai a compreensão de Deus; não através de vossos livros, de páginas amarelecidas pelo muito folhear dos dedos de vossas mãos. Buscai antes compreendê-lo no mais recôndito de vossas almas, robustecidas na prática da solidariedade e na pureza de vossos corações.
Em verdade vos digo, que o Pai sabe o que vai no coração de seus filhos, muito antes que vossas palavras sejam expressadas pela oração. E a presciência de Sua Lei dá a cada um segundo as suas obras.
Assim, não imiteis os fariseus e os escribas hipócritas, que acham que por muito orarem e por muito jejuarem, terão suas preces atendidas…
Jesus havia terminado de falar, e seus olhos estavam marejados, com um brilho supraterreno.
Olhou cada rosto com imensa ternura, como se buscasse neles a certeza de terem assimilado a sua mensagem, e depois, retirou-se com um aceno de mão.
Ninguém se atrevia a quebrar o encanto daquele momento, pois a voz suave do Rabi ainda permanecia reverberando naquela casa humilde, como a sinfonia de mil querubins á cantar hosanas ao Filho de Deus.
Todos sabiam que Jesus ao retirar-se, foi buscar no horto das oliveiras revigorar as energias necessárias para o cumprimento de sua sagrada Missão.
Os apóstolos se foram retirando em passos leves, a mulher idosa, o jovem e o menino foram acomodar-se em suas camas, embalados por aquelas palavras de luz e de amor.
Apenas o candeeiro permaneceu no recinto, sozinho, no silêncio de sua chama votiva, para depois apagar, noite á dentro de sua solidão.
Mensagem escrita por canalização com o espírito de Premanandâchâryâ
Médium: João Batista Goulart Fernandes – 03/10/2005
Enviado por Marco Boeing – ASSEMA
Curitiba-PR
Correio da Umbanda – Edição 15 – Março de 2007
Arquivado em: UMBANDA

